YbyApin: A Perda da Identidade natural - Gael Queiroz

YbyApin. O título, em Tupi, significa "terra pelada"; — e é exatamente isso que o curta nos oferece: o corpo exposto da terra, aquilo que resta quando tudo o que era vivo foi arrancado. O filme narra o processo pelo qual a natureza retrocede diante do avanço do agronegócio, e como nos acostumamos — perigosamente — a viver em meio àquilo que nos destrói, a ponto de normalizarmos a poluição como se fosse paisagem.
A escolha estética não é acidental: a animação feita com giz de cera sobre papel
confere à obra uma sutileza que não ameniza, mas aprofunda o que se denuncia. Aquele colorido inicial, que à primeira vista poderia remeter à infância e ao lúdico, revela-se o oposto do que seria o natural — é um colorido que agoniza, que remete à morte. Os tons isolados surgem justamente após a retirada do verde, que seria a vida, e do azul, que aos poucos se acinzenta, representando a opressão e o cotidiano da cidade: uma prisão sonora, visual e existencial. O filme nos conduz de uma vivacidade alegre e aparente para um estado de alerta — um colorido que já não é vida, mas atenção, cuidado, insulfilm sobre a paisagem.
A escolha da linguagem é igualmente precisa. Algumas cenas em “live action” — o
fogo — irrompem como lembretes do real: queimada, destruição, perda irreversível. E o tempo, esse elemento tão caro ao cinema, aqui se torna personagem. A taxa de quadros por segundo nos dá a nítida sensação de que aquelas imagens foram fotografadas em um tempo muito maior, um tempo dilatado, e essa lentidão é significativa: enquanto assistimos,
a natureza vai morrendo diante dos nossos olhos. Vemos tudo. E, ainda assim,
permanecemos inertes, sem nada fazer. Essa é talvez a mais cruel das constatações que o curta nos impõe.
Com o passar do tempo, após a destruição total, os tons de cinza-azulado dominam e preenchem completamente a tela. O que era giz de cera torna-se, então, brincadeira de
criança no tempo — barbantes e tecidos representando lagos, a vida que já não existe, agora sob uma tonalidade que preenche tudo. A cidade se apresenta com corpos humanos envoltos em azul obscuro, o cotidiano agressivo, barulhento, sonoramente poluído, repletode prédios, fumaças e concreto. Não há mais natureza: há o que restou dela.
Diante disso, me lembrei da página 25 de “Ideias para adiar o fim do mundo”, de
Ailton Krenak, não poderia ser mais pertinente: "Para que ter cidadania, alteridade, estar no mundo de uma maneira crítica e consciente, se você pode ser consumidor." ; É essa a descrição exata do que YbyApin nos apresenta. Um mundo onde a cidadania foi substituída pelo consumo, onde a alteridade cedeu lugar à indiferença, e onde estar no mundo de maneira crítica se tornou um gesto quase revolucionário. O curta não nos oferece consolo — oferece espelho. E nos convida, com a sobriedade de quem conhece a gravidade do que
denuncia, a não desviar o olhar.



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