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DESVER

FESTIVAL DE CINEMA 

UNIVERSITÁRIO

DE MATO GROSSO DO SUL

‘Para César’: a imortalidade simbólica e o luto afetivo através da música - Pedro Vilalba

Foto do escritor: Pedro Vilalba
Pedro Vilalba
25 de set.
4 min de leitura

O curta-metragem “Para César” (2026), de LP Arruda, conta sobre uma

pequena passagem da vida do jovem Lucas, junto ao seu avô, César. Na qual,

o rapaz acaba conhecendo um pouco do passado de seu parente e também

sobre um interesse que possuem em comum: a música. Além disso, para mim,

pôde-se notar muita pessoalidade nesse projeto, com um grande viés de

homenagem. Acho isso muito positivo quando se pensa na caminhada de um

pensador criativo dando seus primeiros passos na elaboração de suas ideias,

pois, em acordo com a lendária cineasta da Nouvelle Vague, Agnès Varda, sou

da vertente que defende que antes de olhar para o externo ao pensar uma

obra, deve-se olhar para dentro de si e só aí espelhar o mundo com a empatia

devida.

O enredo é bastante simples e não possui grandes pontos de virada,

com exceção do final, em específico – algo que comentarei mais à frente.

Entretanto, isso não é necessariamente uma crítica, já que consegue ser bem

amarrado e, em certo nível, instigante para o espectador. Os diálogos e a

relação dos dois personagens são bastante confortáveis, também sem

apontamentos de grande impacto. Particularmente, agrada-me bastante o

momento em que ambos se sentam no banco da área exterior e começam a

conversar sobre violão e passado. Todavia, me desagrada um pouco a

sequência do varal, pois acho que as informações retomadas o paralelo

traçado entre Cézar e Lucas, na questão da violência, não dão a sensação de

possuírem uma força poética suficiente para estarem presentes, quase que

estando um pouco deslocada na trama.

Algo notável, é a maestria do diretor na idealização dos planos, tanto

quanto a realização da equipe. A maneira como os planos detalhes são

distribuídos, a preocupação nas composições do espaço cênico e a busca pela

identidade estética no modelo de molduras visuais, são definitivamente pontos

bem interessantes do filme. Além disso, a direção dos atores é muito bem

elaborada e executada, principalmente porque um dos atores, Vittor Gizziati,

que dá vida a Lucas criança, ainda é um pré-adolescente. O garoto

definitivamente se sai muito bem e consegue trazer a carga emocional

necessária durante as cenas. O ator de Cézar, Gleison Cruz, também cumpre o

papel devido, principalmente na questão do registro oral do personagem, que,

regionalizado, é rigorosamente mantido.

A fotografia também é muito boa na maior parte do tempo. Por exemplo,

no plano em que ambos caminham na estradinha ao lado da casa, em um

plano geral, e os galhos de uma árvore retorcida praticamente debruçam-se

sobre eles, criando uma moldura lindíssima. Os planos-geral fixos dos lugares,

no final, e os da ambientação interconectados com o diálogo do banco também


são muito bonitos. Entretanto, as cenas com os personagens possuem

momentos de uma super exposição exagerada, principalmente no que diz

respeito a captações internas com janelas. Não sei se isso foi uma ideia

premeditada ou acabou acontecendo, mas, caso tenha sido algo de caso

pensado, acredito que não seja positivamente aditivo ao curta. Em muitos

momentos, nossa percepção do que acontece em cena é afetado por isso,

inclusive.

A arte é muito bem elaborada. A constituição do quarto de Lucas, tal

qual da oficina de Cézar é muito bem elaborada, trazendo um ar nostálgico e,

ao mesmo tempo, bem particular. A nostalgia, inclusive, é uma procura de tom

bem constante no curta. Os objetos de cena e a cenografia colaboram bastante

para isso, tal como as molduras naturais dos planos (lembrando fotografias) e a

própria correção de cor, que traduz bastante disso.

O plot twist do final consiste na descoberta de que, na verdade, toda

trama desenrolada se passava no passado dos personagens e que, tempo

presente, aparentemente Cézar já está morto. O personagem de Lucas já é

adulto e toca a mesma música tocada por Cézar anteriormente, em uma rima

narrativa interessante. No entanto, não gosto muito dessa escolha, porque

acredito que uma moldura completa, com um prólogo já desse tempo presente,

ou uma manutenção intercalada dos dois tempos do curta, seria muito melhor.

A captação e mixagem de som são impecáveis, tanto nos diálogos,

quanto nas partes musicais. As partes externas, inclusive, não possuem ruído

algum, o que é bem surpreendente. As músicas, também, são muito bem

gravadas e mixadas. Em alguns momentos, senti falta de algumas artes de

foley para manutenção de pequenas movimentações pelo cenário, mas nada

muito crucial, como na cena da cozinha.

Não sou um dos maiores fãs da palheta estar no bolso da mesma

camisa de Lucas como criança e como adulto para esse time skip. Acho que

isso deixa muito óbvia a ligação entre o jovem e seu avô, com uma exposição

visual muito literal. Acho que toda a construção disso anteriormente, por toda

extensão do curta-metragem, é algo muito mais rico. Esse talvez seja um

pequeno problema que acredito estar mais relacionado à minha forma de ver

cinema, mas alguns momentos em que o diretor busca uma sintetização de sua

ideia me parecem desnecessários.

No fim, “Para César”, de LP Arruda, é um curta que fala muito da

identidade do próprio autor, traz algo realmente pessoal, mas, além disso,

consegue demonstrar suas capacidades de direção e o potencial que tem para

dar singularidade a narrativas que possam, em premissa, parecerem bem

simples. É, definitivamente, um excelente trabalho. Apesar de algumas

ressalvas, criei um ideal positivo sobre esse curta. Consegue ser bem

regionalizado, pessoal, simples e, ainda sim, ter um poder de comoção bem

interessante. Estou curioso para os próximos trabalhos do autor e,

especificamente, para um que não esteja diretamente relacionado com sua

própria vida.

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