‘Para César’: a imortalidade simbólica e o luto afetivo através da música - Pedro Vilalba

O curta-metragem “Para César” (2026), de LP Arruda, conta sobre uma
pequena passagem da vida do jovem Lucas, junto ao seu avô, César. Na qual,
o rapaz acaba conhecendo um pouco do passado de seu parente e também
sobre um interesse que possuem em comum: a música. Além disso, para mim,
pôde-se notar muita pessoalidade nesse projeto, com um grande viés de
homenagem. Acho isso muito positivo quando se pensa na caminhada de um
pensador criativo dando seus primeiros passos na elaboração de suas ideias,
pois, em acordo com a lendária cineasta da Nouvelle Vague, Agnès Varda, sou
da vertente que defende que antes de olhar para o externo ao pensar uma
obra, deve-se olhar para dentro de si e só aí espelhar o mundo com a empatia
devida.
O enredo é bastante simples e não possui grandes pontos de virada,
com exceção do final, em específico – algo que comentarei mais à frente.
Entretanto, isso não é necessariamente uma crítica, já que consegue ser bem
amarrado e, em certo nível, instigante para o espectador. Os diálogos e a
relação dos dois personagens são bastante confortáveis, também sem
apontamentos de grande impacto. Particularmente, agrada-me bastante o
momento em que ambos se sentam no banco da área exterior e começam a
conversar sobre violão e passado. Todavia, me desagrada um pouco a
sequência do varal, pois acho que as informações retomadas o paralelo
traçado entre Cézar e Lucas, na questão da violência, não dão a sensação de
possuírem uma força poética suficiente para estarem presentes, quase que
estando um pouco deslocada na trama.
Algo notável, é a maestria do diretor na idealização dos planos, tanto
quanto a realização da equipe. A maneira como os planos detalhes são
distribuídos, a preocupação nas composições do espaço cênico e a busca pela
identidade estética no modelo de molduras visuais, são definitivamente pontos
bem interessantes do filme. Além disso, a direção dos atores é muito bem
elaborada e executada, principalmente porque um dos atores, Vittor Gizziati,
que dá vida a Lucas criança, ainda é um pré-adolescente. O garoto
definitivamente se sai muito bem e consegue trazer a carga emocional
necessária durante as cenas. O ator de Cézar, Gleison Cruz, também cumpre o
papel devido, principalmente na questão do registro oral do personagem, que,
regionalizado, é rigorosamente mantido.
A fotografia também é muito boa na maior parte do tempo. Por exemplo,
no plano em que ambos caminham na estradinha ao lado da casa, em um
plano geral, e os galhos de uma árvore retorcida praticamente debruçam-se
sobre eles, criando uma moldura lindíssima. Os planos-geral fixos dos lugares,
no final, e os da ambientação interconectados com o diálogo do banco também
são muito bonitos. Entretanto, as cenas com os personagens possuem
momentos de uma super exposição exagerada, principalmente no que diz
respeito a captações internas com janelas. Não sei se isso foi uma ideia
premeditada ou acabou acontecendo, mas, caso tenha sido algo de caso
pensado, acredito que não seja positivamente aditivo ao curta. Em muitos
momentos, nossa percepção do que acontece em cena é afetado por isso,
inclusive.
A arte é muito bem elaborada. A constituição do quarto de Lucas, tal
qual da oficina de Cézar é muito bem elaborada, trazendo um ar nostálgico e,
ao mesmo tempo, bem particular. A nostalgia, inclusive, é uma procura de tom
bem constante no curta. Os objetos de cena e a cenografia colaboram bastante
para isso, tal como as molduras naturais dos planos (lembrando fotografias) e a
própria correção de cor, que traduz bastante disso.
O plot twist do final consiste na descoberta de que, na verdade, toda
trama desenrolada se passava no passado dos personagens e que, tempo
presente, aparentemente Cézar já está morto. O personagem de Lucas já é
adulto e toca a mesma música tocada por Cézar anteriormente, em uma rima
narrativa interessante. No entanto, não gosto muito dessa escolha, porque
acredito que uma moldura completa, com um prólogo já desse tempo presente,
ou uma manutenção intercalada dos dois tempos do curta, seria muito melhor.
A captação e mixagem de som são impecáveis, tanto nos diálogos,
quanto nas partes musicais. As partes externas, inclusive, não possuem ruído
algum, o que é bem surpreendente. As músicas, também, são muito bem
gravadas e mixadas. Em alguns momentos, senti falta de algumas artes de
foley para manutenção de pequenas movimentações pelo cenário, mas nada
muito crucial, como na cena da cozinha.
Não sou um dos maiores fãs da palheta estar no bolso da mesma
camisa de Lucas como criança e como adulto para esse time skip. Acho que
isso deixa muito óbvia a ligação entre o jovem e seu avô, com uma exposição
visual muito literal. Acho que toda a construção disso anteriormente, por toda
extensão do curta-metragem, é algo muito mais rico. Esse talvez seja um
pequeno problema que acredito estar mais relacionado à minha forma de ver
cinema, mas alguns momentos em que o diretor busca uma sintetização de sua
ideia me parecem desnecessários.
No fim, “Para César”, de LP Arruda, é um curta que fala muito da
identidade do próprio autor, traz algo realmente pessoal, mas, além disso,
consegue demonstrar suas capacidades de direção e o potencial que tem para
dar singularidade a narrativas que possam, em premissa, parecerem bem
simples. É, definitivamente, um excelente trabalho. Apesar de algumas
ressalvas, criei um ideal positivo sobre esse curta. Consegue ser bem
regionalizado, pessoal, simples e, ainda sim, ter um poder de comoção bem
interessante. Estou curioso para os próximos trabalhos do autor e,
especificamente, para um que não esteja diretamente relacionado com sua
própria vida.



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