top of page

DESVER

FESTIVAL DE CINEMA 

UNIVERSITÁRIO

DE MATO GROSSO DO SUL

O equilíbrio de cada dia - Leonardo Freitas

Foto do escritor: Leonardo Freitas
Leonardo Freitas
25 de set.
4 min de leitura

O curta-metragem “IRAÊ” (2025), de Gabriel Vilela, é um documentário que

acompanha uma família de artistas colombianos composta pelo casal Aimer

Montoya e Alejandra Martinez e por seu filho Iraê, homenageado no título da obra.

O curta abrange três diferentes momentos da vida da família. O primeiro em 2018, antes do nascimento do jovem Iraê, apresentando os dois protagonistas e seu estilo de vida como artistas de rua na capital de Goiás. O segundo contém uma breve aparição do período de gravidez de Alejandra, que marca um ponto de virada na história do casal. E por fim, o terceiro, que mostra algum tempo após a chegada de Iraê na vida do par, que agora precisa conciliar novas responsabilidades com um modo de vida semelhante ao antigo.

O filme se passa na cidade de Goiânia, onde o casal de imigrantes, que

antes viviam como mochileiros, decidiu se estabelecer. Ambos descobriram a

paixão pelas artes circenses enquanto ainda estavam na faculdade. Começaram

pelo malabarismo e foram se aprofundando cada vez mais, não só na arte, mas

também no estilo de vida que levavam alguns de seus colegas.

Aimer e Alejandra optaram pelas ruas ao invés do palco, fato que trouxe à

tona na vida deles a conflituosa relação entre “trabalho” e “sonho”. As profissões

realizadas em semáforos, seja como artista independente, ou qualquer outra função,

ainda é palco de muito preconceito no Brasil, o que acaba tornando instável a

segurança financeira dos artistas. Demonstrando, na prática, a dificuldade do

brasileiro de compreender que a arte também está presente na performance urbana e que o país ainda é alienado quanto à importância da cultura na educação e no cotidiano.

Mas ao contrário de qualquer tom melancólico que tal tema possa conter, o

curta escolhe seguir com uma abordagem muito mais positiva. A trilha sonora do

próprio Aimer, a fotografia colorida, os relatos do casal, que por mais que exponham as dificuldades que ambos passam, ainda contém muita paixão e certeza, são fatores que contribuem para a positividade e esperança da obra. Tudo isso, rodeado pela metáfora sobre a relação de equilíbrio entre arte e dinheiro com o as performances realizadas pelos dois artistas.

Uma das grandes qualidades do curta é sua capacidade de gerar conexão

entre o público e a família em questão, além de também conseguir provocar

reflexões no espectador que fazem-no perceber algumas dessas parcelas tão

marginalizadas da sociedade. Através da exposição da vivência e dos desafios

enfrentados por nossos protagonistas a obra faz com que quem esteja assistindo

acabe por se relacionar com eles. Seja por conta de alguma memória afetiva com o ambiente do circo, da questão familiar, das problemáticas que enfrentam

diariamente, ou do próprio carisma do Aimer e da Alejandra, o curta, de alguma

maneira consegue fazer essa ponte emocional entre interlocutor e receptor, o que é muito importante em um documentário que tem a intenção de transparecer

humanidade e fazer quem consome refletir sobre alguma das questões que aborda.

Contudo, sente-se a falta de dois fatores que poderiam agregar ao curta e

fazer o espectador gostar ainda mais das personagens. Um deles sendo a adição

de alguma carga emocional para os desafios que o casal enfrenta, pois a impressão causada pela constância do tom alegre da produção é de que nada parece abalar verdadeiramente nenhum deles. O outro fator é a escassez e o quão raso aparentam serem os relatos dos dois. O descobrimento da arte que praticam fica em primeiro plano, porém, seria muito interessante se fossem exploradas histórias sobre complicações que passaram por conta disso, ou melhor ainda, se relatassem experiências de seu relacionamento, uma vez que o filme se apoia tanto no tema do amor, mas não traz conteúdo sobre.

A concisão do documentário acaba por não permitir a criação de uma

narrativa complexa, de maneira que se apresenta apenas o essencial para se

compreender a mensagem inicial do filme. Deste modo, não tornando a experiência de consumir a obra em algo massante ou que possua brechas para alguma distração.

Um detalhe que agrada está presente no elemento de passagem dos anos.

No início do curta, tem-se um leve destaque às bicicletas do casal, que demonstram

a simplicidade da vida que levam. Quando o filme avança para o período de

gravidez de Alejandra, um dos primeiros elementos visíveis é a Kombi do casal, algo que pode ser interpretado como uma evolução, tanto no conforto dos dois, quanto uma representação da nova fase que ambos irão enfrentar juntos. Não só isso, como o veículo em uma estrada, indo em frente, buscando um futuro, esclarece ainda mais esse paralelo e mantém vivo o tom esperançoso da obra.

Outro ponto a ser dado importância é o nome da obra. Como já mencionado,

o título do curta foi baseado no nome do filho do casal que acompanhamos, fato

interessante de ser observado, pois ele eleva não só a dimensão humana do filme a um patamar maior, como também reforça a ideia de futuro e amor presente ao longo da produção.

Em conclusão, o curta-metragem “IRAÊ” do diretor Gabriel Villela é um

documentário sobre a força de vontade, a paixão, o amor e a esperança. Uma obra

que indiretamente inspira quem a consome a buscar sua verdade individual, algo

que lhe torne vivo. Sendo muito disso a partir dos relatos de Aimer e Alejandra

sobre os “malabarismos” que fizeram para conciliar a paixão à realidade muitas

vezes dura do mundo. Um resumo de aproximadamente 7 anos de batalha em

apenas dez minutos. Tudo isso sem esconder os desafios que nossos protagonistas passam diariamente e que será comum a qualquer pessoa que se disponha a encarar o mundo com a mesma coragem e intensidade do casal.

Comentários


bottom of page