Violência em espelho, a psique do caos urbano no filme ‘Entre o Vão’- Gabriel Morábito

O caos urbano das grandes metrópoles brasileiras infelizmente não é
uma novidade; é difícil mensurar o dano contínuo que as condições do
transporte público já causaram, principalmente à população periférica.
Durante alguns anos, no início da minha vida adulta, morei na cidade de
São Paulo e vivenciei todo aquele cenário apocalíptico que via nas
diversas reportagens de jornal sobre linhas paradas e acidentes no trânsito
e nos transportes. Por ser um homem cis e ter morado em uma área
relativamente bem localizada durante boa parte do meu tempo na cidade,
acabei não sentindo na pele exatamente as situações no nível
apresentado no curta e vivido pela protagonista Lavínia. Porém, isso não
me impediu de me sensibilizar bastante com a situação exposta na obra,
apesar de eu ter algumas ressalvas sobre a execução da mesma.
O filme faz um bom trabalho, inicialmente, ao estabelecer uma
diferenciação entre os espaços da obra. O curta se inicia em uma espécie
de “porto seguro”, com cenas das personagens deitadas na cama e,
depois, trocando carícias e fazendo planos para o futuro enquanto se
preparam para o dia. Esses momentos trouxeram uma sensação de
intimidade e otimismo que rapidamente se perde quando a personagem
sai de casa. Essa mudança começa com a trilha sonora da cena seguinte
sendo bruscamente interrompida junto com o fim da bateria dos fones de
Lavínia, uma espécie de aviso de que aquela história não seguiria o rumo
que esperávamos previamente. A diferença entre planos mais
estabilizados e tradicionais no ambiente da casa, em contraposição à
câmera na mão e ao uso de ângulos de plano mais ousados
(provavelmente uma solução orçamentária e logística da obra), também
cumpre um bom papel na diferenciação dos espaços e dos sentimentos
que cada um carrega.
A cena seguinte inicia uma sequência de momentos em que a
protagonista procura alguma forma de auxílio ou empatia de figuras que
exercem poder no contexto da cena. Inicialmente, pede ajuda a um guarda
do metrô, pois acabou de ser furtada na estação de cima, mas é recebida
com desinteresse e inaptidão para ajudá-la. Isso a faz contar com a
bondade de um homem estranho que vendia passagens de metrô pela
metade do preço, algo que, infelizmente, é de se estranhar na cidade em
que o filme se passa. Esse ato de bondade logo volta para assombrar a
protagonista.
A cena do diálogo no trabalho, acredito eu, representa o maior ruído
que senti ao assistir ao filme. Ela segue a lógica da falta de empatia e de
ajuda que a protagonista recebe daqueles ao seu redor, principalmente de
quem ocupa espaços de poder. Contudo, notei uma certa falta de sutileza
no diálogo travado no ambiente de trabalho de Lavínia. O conteúdo da
conversa, em minha opinião, ainda dialoga perfeitamente com a temática
do curta, mas senti certa preguiça na construção de falas mais sutis diante
da homofobia e da frieza daquele ambiente em relação à protagonista e ao
seu recente burnout. O tom caricato do colega de trabalho, a meu ver,
enfraqueceu um pouco essa sequência. Não explorando muito bem os
sentimentos expressos nas entrelinhas em momentos assim.
Acho interessante a forma como o filme brinca com a fusão entre o
real e o sonho, o lúdico e o concreto. A partir de certo ponto da obra, essa
fronteira se torna tão translúcida que já não é mais possível distinguir o
que é real e o que são apenas truques pregados pela mente da
protagonista. Essa mudança trouxe um frescor muito interessante para a
obra, colocando uma pulga atrás da orelha quanto a todos os
acontecimentos da narrativa. Essa descida acelerada da psique da
protagonista que vai desde não ajudar uma mulher que é assediada à sua
frente no metrô até a cena de violência no final é construída como um
espelho do que ela mesma sofre ao longo de toda a obra: a falta de ajuda
e de empatia. Durante a sequência do sonho, isso se apresenta como a
grande questão de Lavínia, que revela ter sido abandonada pelo pai, mais
uma situação em que ela sente o abandono vindo de figuras em posição
de poder.
O ponto mais interessante da sequência final é a revelação, um
pouco ambígua, de que aparentemente aquela violência aconteceu na
mente da protagonista. Esse final além de conseguir inquietar quem
assiste com a dúvida do que realmente aconteceu, também consegue, ao
atrelar esse ato de violência à protagonista, demonstrar a existência de um
ciclo no qual a violência é perpetuada por pessoas que, no momento em
que mais precisavam, não receberam o auxílio necessário, exatamente
como ocorreu com Lavínia.



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