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DESVER

FESTIVAL DE CINEMA 

UNIVERSITÁRIO

DE MATO GROSSO DO SUL

Violência em espelho, a psique do caos urbano no filme ‘Entre o Vão’- Gabriel Morábito

Foto do escritor: Gabriel Reis
Gabriel Reis
23 de set.
3 min de leitura

O caos urbano das grandes metrópoles brasileiras infelizmente não é

uma novidade; é difícil mensurar o dano contínuo que as condições do

transporte público já causaram, principalmente à população periférica.

Durante alguns anos, no início da minha vida adulta, morei na cidade de

São Paulo e vivenciei todo aquele cenário apocalíptico que via nas

diversas reportagens de jornal sobre linhas paradas e acidentes no trânsito

e nos transportes. Por ser um homem cis e ter morado em uma área

relativamente bem localizada durante boa parte do meu tempo na cidade,

acabei não sentindo na pele exatamente as situações no nível

apresentado no curta e vivido pela protagonista Lavínia. Porém, isso não

me impediu de me sensibilizar bastante com a situação exposta na obra,

apesar de eu ter algumas ressalvas sobre a execução da mesma.

O filme faz um bom trabalho, inicialmente, ao estabelecer uma

diferenciação entre os espaços da obra. O curta se inicia em uma espécie

de “porto seguro”, com cenas das personagens deitadas na cama e,

depois, trocando carícias e fazendo planos para o futuro enquanto se

preparam para o dia. Esses momentos trouxeram uma sensação de

intimidade e otimismo que rapidamente se perde quando a personagem

sai de casa. Essa mudança começa com a trilha sonora da cena seguinte

sendo bruscamente interrompida junto com o fim da bateria dos fones de

Lavínia, uma espécie de aviso de que aquela história não seguiria o rumo

que esperávamos previamente. A diferença entre planos mais

estabilizados e tradicionais no ambiente da casa, em contraposição à

câmera na mão e ao uso de ângulos de plano mais ousados

(provavelmente uma solução orçamentária e logística da obra), também

cumpre um bom papel na diferenciação dos espaços e dos sentimentos

que cada um carrega.

A cena seguinte inicia uma sequência de momentos em que a

protagonista procura alguma forma de auxílio ou empatia de figuras que

exercem poder no contexto da cena. Inicialmente, pede ajuda a um guarda

do metrô, pois acabou de ser furtada na estação de cima, mas é recebida

com desinteresse e inaptidão para ajudá-la. Isso a faz contar com a

bondade de um homem estranho que vendia passagens de metrô pela

metade do preço, algo que, infelizmente, é de se estranhar na cidade em

que o filme se passa. Esse ato de bondade logo volta para assombrar a

protagonista.

A cena do diálogo no trabalho, acredito eu, representa o maior ruído

que senti ao assistir ao filme. Ela segue a lógica da falta de empatia e de

ajuda que a protagonista recebe daqueles ao seu redor, principalmente de

quem ocupa espaços de poder. Contudo, notei uma certa falta de sutileza

no diálogo travado no ambiente de trabalho de Lavínia. O conteúdo da

conversa, em minha opinião, ainda dialoga perfeitamente com a temática

do curta, mas senti certa preguiça na construção de falas mais sutis diante

da homofobia e da frieza daquele ambiente em relação à protagonista e ao

seu recente burnout. O tom caricato do colega de trabalho, a meu ver,

enfraqueceu um pouco essa sequência. Não explorando muito bem os

sentimentos expressos nas entrelinhas em momentos assim.

Acho interessante a forma como o filme brinca com a fusão entre o

real e o sonho, o lúdico e o concreto. A partir de certo ponto da obra, essa

fronteira se torna tão translúcida que já não é mais possível distinguir o

que é real e o que são apenas truques pregados pela mente da

protagonista. Essa mudança trouxe um frescor muito interessante para a

obra, colocando uma pulga atrás da orelha quanto a todos os

acontecimentos da narrativa. Essa descida acelerada da psique da

protagonista que vai desde não ajudar uma mulher que é assediada à sua

frente no metrô até a cena de violência no final é construída como um

espelho do que ela mesma sofre ao longo de toda a obra: a falta de ajuda

e de empatia. Durante a sequência do sonho, isso se apresenta como a

grande questão de Lavínia, que revela ter sido abandonada pelo pai, mais

uma situação em que ela sente o abandono vindo de figuras em posição

de poder.

O ponto mais interessante da sequência final é a revelação, um

pouco ambígua, de que aparentemente aquela violência aconteceu na

mente da protagonista. Esse final além de conseguir inquietar quem

assiste com a dúvida do que realmente aconteceu, também consegue, ao

atrelar esse ato de violência à protagonista, demonstrar a existência de um

ciclo no qual a violência é perpetuada por pessoas que, no momento em

que mais precisavam, não receberam o auxílio necessário, exatamente

como ocorreu com Lavínia.




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