SEM QUERER, UMA “INTRUSIVIDADE” À LA ED WOOD - Alécio França

Intrusiva é um daqueles filmes que peca em tudo, mas que, de alguma forma
milagrosa, faz de seus erros seu charme. Seus diálogos são bregas; suas performances robóticas; sua narrativa desnorteada. Mas todos esses defeitos — essas cafonices — acidentalmente nos divertem, atingindo um status “à la Ed Wood”: de uma precariedade que entretém.
A protagonista, uma jovem cega que lê pensamentos, e sua amiga Érica, de boina e corte estranho, têm um contraste, uma química, um antagonismo plástico. São personagens visualmente marcantes que o roteiro e a direção falham em desenvolver. Talvez esse seja o maior erro do filme: suas personagens se baseiam muito no que é dito sobre elas e pouco no
que é mostrado.
Alfred Hitchcock tinha uma crítica muito clara a esse tipo de filme: as chamadas
"fotografias de pessoas conversando”. Como disse em entrevistas: “No Cinema, quando se conta uma história, não se deveria recorrer ao diálogo, a não ser quando é impossível fazer de outro modo.”
Aqui, a narrativa se escora excessivamente no diálogo/narração e esquece da narrativa visual que é própria do cinema. A protagonista, dita solitária, está quase sempre feliz ou rodeada de pessoas. Só sabemos de sua solidão por sua própria fala e seus pensamentos — ela é dita, não mostrada. E sempre que se mostra, a imagem parece apenas ilustrar a narração.
O mesmo se aplica à sua amiga Érica. Em determinado momento, o filme nos diz que ela está “passando por coisas demais”. Mas que coisas são essas? Como isso a afeta? E por que isso é esquecido logo em seguida? Este é outro problema do filme: um roteiro que constantemente se perde. Muito é dito, pouco é mostrado, nada é desenvolvido.
Sobre o que é o filme? Sobre solidão? Sobre empatia? Sobre as complexidades
humanas? O filme claramente tenta elaborar um discurso, uma mensagem bonita no final, mas seus meios não sustentam aquilo que pretende dizer. No fim, seu monólogo se torna desconexo e cômico, em vez de reflexivo.
A solidão, os conflitos internos, as problemáticas das personagens… Tudo é
subdesenvolvido, mal elaborado. O filme parece querer dizer algo importante, mas acaba se confundindo, se perdendo em seus muitos “algos”. Ao tentar acertar tantos alvos, erra todos.
Mas, mesmo com tudo isso, o filme demonstra alguma virtude. Há uma sensibilidade em suas imagens, uma estranheza em suas personagens, um esforço em sua planificação. No fim, as cenas desconexas, os diálogos mal escritos, as atuações cafonas, os exageros, as narrações e os erros tornam a experiência de assisti-lo peculiar.
Há certa graça em seus defeitos.



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