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DESVER

FESTIVAL DE CINEMA 

UNIVERSITÁRIO

DE MATO GROSSO DO SUL

Se a liberdade exige abrir mão de certas coisas, até onde estamos dispostos a ir para sermos livres? - Demian Lima

Foto do escritor: Demian Lima
Demian Lima
25 de set.
3 min de leitura

“Desvios naturais”, dirigido por Rafaella Narciso, é um trabalho de

conclusão de curso que nos mostra a realidade de Valério vivendo em sua Kombi e lidando com os dilemas de solidão e liberdade.

O curta adota uma abordagem reflexiva e intimista, as cenas são bem

construídas, com planos e fotografias mais simples, nada puxado para o

melodramático, que não seria uma escolha ruim, mas dessa forma deixou mais

pessoal o filme. A maior parte da obra é apenas o protagonista, levantando pontos

altos para atuação de Robson Benta. Sua presença sustenta boa parte do filme,

sobretudo nos momentos em que o silêncio e as expressões do personagem dizem mais do que qualquer diálogo poderia dizer. Principalmente, na cena do bar, onde cores refletem no rosto de Valério e ele dá um verdadeiro show na atuação, entregando e fazendo o espectador também sentir como o personagem. É uma cena muito bonita.

A própria Kombi funciona como um elemento importante para a construção

do personagem, ao mesmo tempo em que representa a liberdade de Valério, ela

também evidencia seu isolamento. O espaço que poderia significar movimento e

possibilidade acaba sendo também o lugar onde ele permanece sozinho, essa

contradição faz com que a ideia de liberdade apresentada pelo filme não seja

completamente idealizada, já que estar livre também significa lidar com a ausência

de outras pessoas e com as consequências das próprias escolhas. Acho que isso

reflete em cada um de nós também. O ser humano como um todo busca sempre a

liberdade, mas o que exatamente é essa liberdade? Ser livre parece custar muitas

coisas importantes. A relação de Valério com seu filho acrescenta uma camada

ainda mais importante a essa discussão, mesmo sem ocupar grande parte do curta, a presença do filho faz com que a escolha de Valério deixe de ser algo que afeta somente a ele. Existe uma distância entre os dois que parece carregar muito mais do que uma simples separação física. A liberdade que Valério escolheu também significou se afastar de pessoas importantes de sua vida, e o filho acaba sendo uma das formas mais claras de perceber esse custo. E o filme não parece tentar transformar nenhum dos dois em culpado, nem oferece uma explicação simples para essa distância ou dinâmica.

O curta parece interessado mais em acompanhar o personagem do que

explica-lo, tornando o ritmo mais lento e voltando ao ponto intimista que citei no

começo. Para muitos, esse ritmo, pode ser difícil ou desinteressante, ainda mais

pela pouca quantidade de contato com pessoas ou situações externas, mas é uma

experiência contemplativa que caiu muito bem na obra. A escolha de soltar

pequenos pedaços da vida de Valério antes da “liberdade” também é fundamental

para construir esse universo porque faz com que o espectador entenda que sua

vida atual não pode ser separada completamente do que veio antes. Não

conhecemos Valério por inteiro, mas somos apresentados o suficiente para

perceber que existe uma história por trás daquele homem e daquela escolha de

viver na estrada. Esses pequenos fragmentos fazem com que a solidão do presente tenha outro peso, porque ela deixa de ser apenas uma característica de sua rotina e passa a virar uma consequência.

Essa construção também faz com que o curta não precise explicar tudo

sobre Valério, existem lacunas e especulações, que funcionam muito bem dentro da proposta do filme, mas o espectador acaba preenchendo esses espaços a partir do que é mostrado, das atitudes mesmo que pequenas e dos silêncios. Valério parece ter encontrado uma forma de escapar de uma vida que não fazia sentido, mas essa escolha não livra de desconforto ou dores, a liberdade da estrada nesse filme não me apresenta um ponto final, mas um outro caminho, repleto de complexidades e

emoções que ainda precisam ser resolvidas.

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