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DESVER

FESTIVAL DE CINEMA 

UNIVERSITÁRIO

DE MATO GROSSO DO SUL

  • Foto do escritorMaxwell Montado

Quando Tratamos a Realidade Como Ficção

Acredito que qualquer um que leia este texto já deve ter ouvido que toda história tem dois pontos de vista. Parte desta frase se aplica à Invasão ou Contatos Imediatos do 3° Mundo, filme que mostra como a classe média brasileira vê um movimento social e reimagina tal situação real de forma muito criativa.

Eu fui enganado (pelo menos essa é a sensação que fica). O título do curta dá a entender que veríamos uma obra de ficção científica de baixo orçamento, e seu pouco polimento nos efeitos especiais e a câmera de resolução menor colabora com isso. Há então certo grau de enganação, mas do tipo positiva, que me fez ficar surpreso com os temas do filme e sua forma de gravação. O estilo da câmera dá uma sensação de algo rústico, ou feito às pressas da mesma forma que há em A Bruxa de Blair, em que também é utilizado esse recurso. Algo que eu acredito ser tão forte no filme quanto sua mensagem final é a imagem. Pois, ao trabalhar com uma resolução menor do que comumente utilizado pela maioria dos filmes, adiciona personalidade no filme. Ao deixar o filme com um estilo de gravação único há uma estilização do filme, ele fica mais “autoral” e tais características de gravação podem inclusive virar uma marca dos diretores. O enquadramento das cenas fica mais claustrofóbico: mesmo quando as entrevistas acontecem em lugares mais abertos, ainda há a sensação de aperto.

Dentre algumas das características que o curta usa para passar a ideia documental é mostrar o “por trás das câmeras”. Não é todo documentário que faz isso, mas é um recurso usado para dar a ideia de realismo que vários documentários usam. Ele se manifesta de formas mais perceptíveis quando a equipe de gravação é gravada por alguém sem ser o entrevistado ou entrevistador. Esse curta, entretanto, se trata de um falso documentário, e essa característica que está presente em verdadeiros documentários, colabora na confusão de entender o que é ou não encenado nesta obra como um todo. O filme brinca tanto com a ficção quanto com o conceito de mockumentary, o que para mim gera certo grau de desorientação, às vezes de forma positiva ou negativa. Pois normalmente os falsos documentários tentam nos convencer de que algo que está sendo contado é real. Invasão faz o inverso de certa forma; nos faz ver algo que claramente é irreal e nos arremessa de volta a realidade com o decorrer do filme. Agora nós entendemos que algumas falas podem não ser do roteiro e sim improvisos, as perguntas eram diferentes, houve uma grande manipulação dos fatos apresentados. Isso me deixa descrente de parte do que eu vi em grande parte do filme como verossímil. Usaram do recurso da montagem para fazer com que as respostas mudassem e não encaixassem nas perguntas mostradas nas cenas, o que gera uma desconfiança no que é representado. Algumas cenas que vêm a minha memória aparentam estar completamente desconectadas com a premissa da curta, tanto na questão dos alienígenas quanto do movimento social. No momento em que é entrevistado um ex-dono da locadora soa completamente fora dos tópicos abordados na história, o próprio entrevistador não faz perguntas que retomam assuntos anteriores.

Essas questões da criação da narrativa são comuns no “gênero” de falso documentário. Algo que soou incomum para mim, por outro lado, foram os temas abordados em Invasão. Possivelmente, pela minha falta de referências, eu não esperava que um mockumentary conseguisse abordar um assunto tão relevante na contemporaneidade. Conheço poucos mockumentaries, como What We Do in the Shadows e This Is Spinal Tap, e sempre relacionei esse formato a filmes menos compromissados com debates “sérios”. A própria sinopse, que eu conferi antes de ver o filme para saber um pouco dele antes de confrontá-lo, entrega bem pouca informação e o faz parecer vazio. Entretanto, fiquei intrigado com uma obra que além de aparentar realmente ser um documentário, tem a discussão de como a classe média vê grupos sociais em específico. Há certo grau de indiferença da classe média com os membros do MUST, agindo de uma forma de como se eles estivessem realizando algo criminoso, sendo que na verdade eles estão reivindicando certos direitos. A minha visão de alguém que não convive nessa realidade, mas que entende o lado do movimento, acaba vendo uma percepção bastante distorcida da minha, há muito preconceito e falta de conhecimento da luta das causas do MUST.

Ao contar sobre como certas pessoas são vistas como alienígenas, há uma tentativa de deixar o assunto mais simples para certos espectadores, que podem ser pegos desprevenidos com a real identidade dos extraterrestres. Eu digo uma tentativa pela forma em que a invasão se constrói não me convencer. As entrevistas, gravações e notícias deixaram claro para mim se tratar de uma analogia a algo maior. A simplicidade do uso de alienígenas faz eu crer que essa curta foi feita para ser mostrada ao público jovem, da mesma forma de Ilha Das Flores, pois se trata de um tema pouco abordado de forma explícita pela grande mídia, mas que precisa ser debatido. Tal simplicidade não se refere no caso de atacar de maneira frontal, mas de ir construindo uma ideia enquanto a história vai se desenvolvendo, como se fizesse que lentamente entendêssemos a crítica. A metáfora ou analogia não está apenas no uso da palavra alienígena para se referir aos membros do MUST, mas também nos termos invasão e invasores. Os termos são usados nas entrevistas inicialmente para se referir aos alienígenas, mas com o passar do tempo quando percebemos se tratar de um movimento social, isso ressignifica o que estávamos vendo. É evitado o uso de algo menos agressivo como 'ocupantes', por exemplo, para manter a nossa mente imersa nesta visão de hostilidade do grupo. Contudo, junto a palavra invasão que dá o teor agressivo, é dito por alguns entrevistados o termo invasão pacífica, o que indica que mesmo não fazendo nada os “alienígenas” incomodam certas pessoas, mesmo com inação. É como se a existência deles causasse incômodo. Isso pra mim exemplifica diversos tipos de preconceitos distintos, em que tentam passar a sensação que não é possível um convívio pacifico, devido a negação da ajuda, como por exemplo dos refugiados na Europa.

O uso do termo “3º mundo” também muda com o filme se desenvolve: o que antes parecia se referir a outro mundo, no sentido de outro planeta, torna-se agora o medo daquela população não de, mas do próprio povo. Pessoas com medo de pessoas, classe média com medo da classe baixa. O terceiro mundo sempre é associado à pobreza, e essa pobreza incomoda a classe média, que esquece das enormes desigualdades do país que vive. O contato do 3° mundo é o encontro da classe média com aqueles que eles evitam.

Temos aqui uma história que se passa no Recife. Cidade que mesmo não tendo a conhecida já vi em diversos ângulos por Kleber Mendonça, isso gera até uma vontade de conhecê-la. Vejo agora por um outro olho essa cidade distante do eixo Rio de Janeiro e São Paulo, onde comumente consumimos conteúdo “nacional”. Contudo, essa grande presença da cidade na história me faz lembrar de certas discussões acerca da realização de curtas com foco na nossa cidade, se podia soar artificial ou não. Eu acredito que deve ser algo que deve ser feito conforme a demanda criativa, não imposto, ainda mais vindo de uma cidade e estado que para mim sofre de falta de identidade, por ser um aglomerado de diversos cantos do Brasil. É muito difícil achar algo que represente por inteiro um local que sofre tanta influência externa, mas não acho que seja impossível.

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