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DESVER

FESTIVAL DE CINEMA 

UNIVERSITÁRIO

DE MATO GROSSO DO SUL

‘Os Arcos Dourados de Olinda’: uma guerra que não tinha terminado - Gael Queiroz

Foto do escritor: Gael Queiroz
Gael Queiroz
23 de set.
3 min de leitura

Um curta dirigido por Douglas Henrique e narrado por Giordano Castro, por meio dacuradoria online de um festival universitário. Não se trata de uma obra que se esgota naprimeira visualização. Ao contrário, é daquelas que permanecem conosco por algum tempo, exigindo que o espectador reorganize o que sabia sobre um determinado período histórico.

O filme parte de um contexto amplamente conhecido — a Guerra Fria, a oposição

entre capitalismo e comunismo, Estados Unidos e União Soviética —, mas não se limita a repeti-lo. Sua tese central é a de que essa história não se encerrou com a queda do bloco soviético. Ela sobreviveu, de forma simbólica e bastante concreta, em Pernambuco. Mais especificamente no Recife, onde o confronto entre dois modelos de mundo teria ganhado novos contornos, adaptados à realidade local.

O elemento que ancora essa leitura é a chegada do McDonald's tanto na antiga

União Soviética quanto em Pernambuco, no fim dos anos 80. A rede de alimentação rápida, que já operava no Brasil desde o final da década anterior, chega ao Recife como símbolo acabado do avanço estadunidense. A partir daí, o filme constrói uma narrativa de enfrentamento: de um lado, o que restou do espírito soviético, encarnado no povo pernambucano e na esquerda ligada ao PCdoB; de outro, a hegemonia cultural e econômica dos Estados Unidos, representada pelos Arcos Dourados. É uma oposição que poderia soar simplificadora, mas que o filme sustenta com competência, porque não a trata como abstração, e sim como experiência vivida por pessoas reais.

Muito do acerto da obra está no uso das imagens de arquivo, que é foco narrativo

principal desta história. São jornais da época, documentários, registros institucionais, muitos deles remasterizados e reapresentados com cuidado. Esse trabalho de pesquisa e restauração não é um detalhe menor: ele nos permite o clima político e social daquele momento sem que o filme precise recorrer a explicações didáticas em excesso. A montagem e a edição, conduzidas com precisão por Douglas Henrique, articulam esses

materiais de modo que a narrativa avance sem perda de densidade. A trilha sonora cumpre função semelhante, ao misturar sucessos locais e nacionais a trechos do hino da União Soviética. O contraste não é gratuito: ele reforça, no plano sonoro, a dualidade que o filme examina no plano histórico.

A narração de Giordano Castro merece menção apartada. Sua voz é serena,

informativa, sem apelo ao sensacionalismo. Há nela a medida exata entre o rigor do historiador e a curiosidade de quem quer contar uma boa história. Isso faz diferença, porque o tema poderia facilmente descambar para o panfleto ou para a nostalgia. Castro evita ambos. O que se ouve é uma condução sóbria, que respeita o espectador e não subestima sua capacidade de tirar conclusões próprias.

Há ainda um aspecto que considero particularmente relevante: o deslocamento do

eixo narrativo. Ainda estamos acostumados a pensar os grandes acontecimentos nacionais a partir do Rio de Janeiro e de São Paulo. O filme recusa essa centralidade e situa o conflito no Nordeste, mostrando que a Guerra Fria também teve seus desdobramentos por aqui, marcando de maneira duradoura uma geração de pernambucanos. Essa escolha não é apenas geográfica; é política. Ela reconhece que a história do país não se escreve apenas nos grandes centros.

Em determinado momento, a obra estabelece uma sátira com a invasão do Iraque,

deslocando-a para o terreno local e transformando-a em gesto de politização. É um recurso que ilustra bem a proposta do filme: mostrar que a força popular tem peso e que mesmo quem trabalhava no estabelecimento podia tomar consciência do que aquilo representava. Não se trata de romantizar a resistência, mas de reconhecer que ela existiu e que deixou marcas.

“Os Arcos Dourados de Olinda” é, a meu ver, um registro necessário. Não apenas

por resgatar um episódio pouco discutido, mas por fazê-lo com maturidade técnica e clareza de propósito. Douglas Henrique conduz o projeto com domínio da linguagem documental, e Giordano Castro empresta à narrativa a sobriedade que o assunto exige. É um filme que merece circular, ser visto e discutido — não só em Pernambuco, mas em todo o país.

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