O Que Estamos Assistindo? - Demian Lima

“TV Entreaberta”, dirigida por Mateus Compart, mostra uma mulher sendo
abduzida para dentro de sua televisão, especificamente para um programa com um apresentador caricato americano.
Este curta-metragem aborda, principalmente, a relação das mídias
moldando o comportamento e pensamento das pessoas que a consumem, o que se aplica muito bem a nossa realidade atual na sociedade, seja brasileira ou não. A
televisão deixa de ser apenas um meio de transmissão e passa a ser o próprio
espaço onde a personagem está presa, colocando-a diretamente dentro daquilo
que antes apenas observava. A partir disso, o filme constrói uma representação
exagerada de como o consumo de mídia pode influenciar a forma como
enxergamos o mundo, a escolha de utilizar diferentes formatos televisivos
contribui para essa ideia.
O uso do exagero e da caricatura é um ponto alto. Eles expõem a TV como
um ambiente caótico, repleto de atrações que se sucedem e absorvem a
personagem. Mesmo no absurdo desse “espetáculo”, há familiaridade, porque
reconhecemos essa linguagem graças ao nosso repertório cultural.
Assim, a animação critica a TV sem precisar reinventá-la, apenas leva os
traços reais ao extremo, impactando diretamente o espectador. Ao mesmo tempo
em que se observa a personagem sendo submetida aquela lógica, somos nós que
estamos do outro lado da tela, consumindo o que acontece. A televisão que o curta apresenta pode ser absurda, mas sua lógica não é tão distante da realidade.
Somos acostumados a assistir, consumir e passar rapidamente de uma
imagem para outra, a popularização dos vídeos curtos e da rolagem contínua
intensificou esse comportamento. Um vídeo termina e imediatamente outro ocupa
seu lugar, sem que exista necessariamente um intervalo entre eles. Estamos
constantemente diante de um novo estímulo, o que pode afetar nossa capacidade
de permanecer atentos a uma única imagem ou conteúdo por mais tempo. É uma
dinâmica em que, quanto mais consumimos, mais somos consumidos.
Além da discussão que o curta propõe, sua estética foi um dos aspectos que
mais me chamou atenção. A experiência visual é interessante e pega o espectador
mesmo quando a narrativa não se aprofunda tanto. Considerando que se trata de
uma produção universitária, com recursos mais limitados, é interessante perceber
como o curta consegue construir uma identidade própria através de suas escolhas
visuais.
Mesmo que a narrativa pudesse se aprofundar mais em alguns aspectos, a
forma como o curta constrói sua crítica faz com que a ideia principal seja
facilmente compreendida. “TV Entreaberta” não precisa apresentar uma resposta
para o problema que levanta. Seu principal mérito está em transformar uma
relação cotidiana em uma situação impossível, usando o absurdo para chamar
atenção para algo que normalmente passa despercebido. A televisão do curta é
exagerada porque precisa ser, mas a sensação de estar constantemente diante de
uma nova imagem e de um novo estímulo não é tão distante do que vivemos hoje.
Talvez seja justamente por não precisar explicar demais que a proposta funciona. O filme coloca o espectador diante desse excesso e faz com que ele perceba que, enquanto observa a personagem sendo consumida pela televisão, também
continua ali, assistindo.



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