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DESVER

FESTIVAL DE CINEMA 

UNIVERSITÁRIO

DE MATO GROSSO DO SUL

O Que Estamos Assistindo? - Demian Lima

Foto do escritor: Demian Lima
Demian Lima
23 de set.
2 min de leitura

“TV Entreaberta”, dirigida por Mateus Compart, mostra uma mulher sendo

abduzida para dentro de sua televisão, especificamente para um programa com um apresentador caricato americano.

Este curta-metragem aborda, principalmente, a relação das mídias

moldando o comportamento e pensamento das pessoas que a consumem, o que se aplica muito bem a nossa realidade atual na sociedade, seja brasileira ou não. A

televisão deixa de ser apenas um meio de transmissão e passa a ser o próprio

espaço onde a personagem está presa, colocando-a diretamente dentro daquilo

que antes apenas observava. A partir disso, o filme constrói uma representação

exagerada de como o consumo de mídia pode influenciar a forma como

enxergamos o mundo, a escolha de utilizar diferentes formatos televisivos

contribui para essa ideia.

O uso do exagero e da caricatura é um ponto alto. Eles expõem a TV como

um ambiente caótico, repleto de atrações que se sucedem e absorvem a

personagem. Mesmo no absurdo desse “espetáculo”, há familiaridade, porque

reconhecemos essa linguagem graças ao nosso repertório cultural.

Assim, a animação critica a TV sem precisar reinventá-la, apenas leva os

traços reais ao extremo, impactando diretamente o espectador. Ao mesmo tempo

em que se observa a personagem sendo submetida aquela lógica, somos nós que

estamos do outro lado da tela, consumindo o que acontece. A televisão que o curta apresenta pode ser absurda, mas sua lógica não é tão distante da realidade.

Somos acostumados a assistir, consumir e passar rapidamente de uma

imagem para outra, a popularização dos vídeos curtos e da rolagem contínua

intensificou esse comportamento. Um vídeo termina e imediatamente outro ocupa

seu lugar, sem que exista necessariamente um intervalo entre eles. Estamos

constantemente diante de um novo estímulo, o que pode afetar nossa capacidade

de permanecer atentos a uma única imagem ou conteúdo por mais tempo. É uma

dinâmica em que, quanto mais consumimos, mais somos consumidos.

Além da discussão que o curta propõe, sua estética foi um dos aspectos que

mais me chamou atenção. A experiência visual é interessante e pega o espectador

mesmo quando a narrativa não se aprofunda tanto. Considerando que se trata de

uma produção universitária, com recursos mais limitados, é interessante perceber

como o curta consegue construir uma identidade própria através de suas escolhas

visuais.

Mesmo que a narrativa pudesse se aprofundar mais em alguns aspectos, a

forma como o curta constrói sua crítica faz com que a ideia principal seja

facilmente compreendida. “TV Entreaberta” não precisa apresentar uma resposta

para o problema que levanta. Seu principal mérito está em transformar uma

relação cotidiana em uma situação impossível, usando o absurdo para chamar

atenção para algo que normalmente passa despercebido. A televisão do curta é

exagerada porque precisa ser, mas a sensação de estar constantemente diante de

uma nova imagem e de um novo estímulo não é tão distante do que vivemos hoje.

Talvez seja justamente por não precisar explicar demais que a proposta funciona. O filme coloca o espectador diante desse excesso e faz com que ele perceba que, enquanto observa a personagem sendo consumida pela televisão, também

continua ali, assistindo.

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