‘FILME-COPACABANA’: UM MICROCOSMOS DO BRASIL - Alécio França

Sob a fachada do antigo Cine Roxy, uma jovem carioca assiste à sinfonia urbana de Copacabana. Seu olhar percorre as favelas, as praias e as ruas do bairro carioca. Seus olhos vêem corpos, homens e mulheres. Já não podendo mais olhar para dentro do velho cinema, resta-lhe apenas olhar para fora. Mas o que ela vê? Palmeiras e as praias bonitas? Para um olhar desatento talvez sim, mas Sofia Leão não busca apenas imagens bonitas para seu filme, ela vai mais fundo: a cada plano, tece um panorama político do Brasil contemporâneo, bem como uma historiografia visual do país.
Ao captar imagens cotidianas de um dia a dia qualquer de Copacabana e montá-las com primor, a diretora vai criando sentidos novos para essas imagens, revelando paralelos históricos, contradições e antagonismos presentes na cultura brasileira. Ela usa o micro, um bairro qualquer do país, para falar do macro: o próprio país. Nesse quesito, sua abordagem é primorosa. Além de demonstrar um domínio excepcional de direção, fotografia e montagem,
Sofia ainda revela sua sensibilidade plástica, musical e humana. Poucos conseguem extrair do cotidiano, sem dizer nenhuma palavra, reflexões e sentidos tão fortes apenas por meio das imagens e da música.
Sua montagem, acompanhando o compasso da trilha sonora, aproxima-se, em muitos momentos, da Montagem Intelectual de Eisenstein, ao justapor imagens distintas para criar, junto à música, um sentido abstrato ou político. Isso é muito presente ao longo de todo o filme, que se sustenta totalmente no diálogo entre música e montagem. Isso se manifesta já no início do filme, que, ao som de “Nesta Rua”, abre para um mar rosado com uma abertura em íris. Leão constrói essa calmaria da praia justamente para, logo em seguida, contrastá-la
com os trabalhadores que a montam. Mais ainda, logo em seguida, essa reflexão de classe ganha contornos raciais. Ainda na mesma música calma, a montagem corta de uma favela no morro para um mato em chamas, em um local semelhante. Juntamente com esse corte abrupto, muda-se de música: agora toca “Suíte Paulista”, de Hermeto Pascoal: outro sentimento; agora sentimos
terror. O trabalho urbano ganha contornos macabros. E é aí que vem a montagem mais espetacular desse filme: Estátua da princesa Isabel; trabalhadores; transeuntes; pah!: uma
mulher com binóculo; POV: em uma placa de metal, lê-se: “Princesa Isabel, A Redentora dos Escravos”; detalhes da estátua; uma mulher negra confeccionando uma pulseira — essas imagens se intercalam durante um tempo; volta para a estátua inteira, a música chega num ápice; silêncio; uma moça negra olha a estátua, depois um frentista, depois outro trabalhador. Tudo por meio do raccord.
Através de suas imagens, o filme ganha boca: “Dizem que a Princesa libertou os
escravos, mas ainda somos escravos. A maré sobe, a maré desce, e com ela se monta e desmonta as cadeiras e guarda-sóis. Os pés quentes percorrem a areia de orla em orla, vendendo e comprando sem cessar. Mas sempre, sempre, repete-se o mantra: recomeçar, mil vezes recomeçar. Dizem alguns: “Faça o Brasil Grande Novamente”, mas quando foi o Brasil grande? Quando nos escravizavam? Quando nos torturavam? Quando nos prendiam, vendiam e matavam?”
Esse filme fala do Brasil que foi e do Brasil que é. Que as nossas contradições são sempre as mesmas. Que o futuro reflete o passado. Nada é novo, apenas trocou de roupagem. E, ao escolher capturar o Brasil contemporâneo em película, Sofia Leão expande sua reflexão temporal para além do plano teórico, incorporando-a ao próprio meio de apreensão de seu assunto: o analógico e o digital se misturam; o passado se faz presente, e, a partir de sua objetiva, uma certa revisão histórica do país pode ser montada. Dessa forma, “Filme- Copacabana” não é apenas sobre o passado que nos assombra, mas também sobre a nossa resiliência, a nossa cultura, a nossa complexidade enquanto nação. Assim, Copacabana se
torna vitrine do Brasil e, ao apontar uma câmera para o espectador no último plano do filme, Sofia nos faz parte desse Brasil. O voyer foi quebrado! Já não há mais distância segura.



Comentários