Diálogo Bulbul - Um canto abafado - Leonardo Freitas

Atualmente, um dos gêneros mais escutados no Brasil é o Funk. O estilo teve
seu início na zona sul do Rio de Janeiro, por volta da década de 70, inspirado no
R&B e no gospel dos Estados Unidos. Eventualmente, aquele estilo de som foi se
espalhando pela capital e começou a ser adotado pelas comunidades da periferia, a qual foi grande responsável por popularizar e ajudar o gênero a se transformar no gigante que é hoje. Com letras que denunciavam a realidade do povo marginal, o Funk se tornou principal meio desses moradores de exporem o que sofriam. E qual era o maior motivo de tal sofrimento? Herança. A herança de um passado
escravocrata e racista culminou na segregação do povo negro brasileiro, causando
danos até hoje irreparados a essas pessoas.
O curta-metragem “Diálogo Bulbul” (2025) de direção coletiva entre Bruno
Churuska, Gledson Augusto, Nicole Mendes, Yan Altino e Zimá Domingos é uma
coletânea de arquivos que questiona e critica a real liberdade do povo negro no
Brasil por meio de um paralelo entre passado e presente. Resgatando desde a
abolição da escravidão no país, a obra apresenta por meio de fotos, pinturas,
poemas e trilha sonora, a resistência da população negra brasileira contra as
diversas atrocidades cometidas desde a escravidão, construindo por meio dessa
narrativa atípica e experimental, uma reflexão sobre memória, cultura, identidade e
resistência dos negros marginalizados.
A obra apresenta uma realidade muitas vezes não abordada comumente em
sistemas de ensino no país devido a uma importação da cultura europeia. Como em muitos países do ocidente, os feitos, a luta, e a história da população negra acaba sendo ofuscada e quase nunca abordada.
O início de Diálogo Bulbul se dá com uma palavra, Abolição, que logo se
torna um questionamento: Será que realmente todo o sofrimento pelo qual
passavam aquelas pessoas foi extinto? A imagem da Princesa Isabel aparece e fica
sobreposta com o documento da Lei Áurea, que seria responsável pela formalização da libertação dos escravos no Brasil. Suas cores piscam invertidas, como em uma inversão de histórias e valores. Após algumas cenas de lugares como linhas de trem e ruas de cidades, muito provavelmente construídas com trabalho forçado, vemos fotografias de mulheres e homens negros.
Aí estão os reais responsáveis pelo “fim” da escravidão, pessoas que
lutaram contra essa repressão em que viviam. As músicas compostas por diferentes gerações, as pinturas que retratavam a realidade negra, as fotos de figuras importantes e até poemas de artistas afro-brasileiros, como Oswaldo de Camargo, aparecem no curta como os verdadeiros libertadores do povo preto. A obra é feliz ao trazer essa relevância da população afro-descendente na sua libertação e também ao demonstrar como a arte foi importante veículo de expressão e rebeldia para essa parcela de brasileiros, além de conseguir apontar e criticar o apagamento dessa história pela cultura branca europeia e seus “heróis”.
Porém, apesar de acertar nesses pontos, a estrutura na qual segue o curta
parece se perder por alguns instantes após os quatro minutos, mas é capaz de
retomar as rédeas aos cinco. algumas imagens que aparecem depois dessa
marcação de tempo ainda são capazes de gerar alguma reflexão, mas outras
aparentam estar simplesmente jogadas no meio da narrativa. A exemplo, temos a
imagem de um cão vira-lata em uma calçada. No contexto do curta, ela aparece de maneira avulsa e não aparenta dialogar com as outras e nem com a trilha sonora.
Em outra perspectiva, essa liberdade contextual de algumas imagens
também é significativa e traz à tona diversas interpretações e debates. Alguns dos
arquivos trazidos pela equipe de “Diálogo Bulbul” são fotografias de famílias que
contém quase sempre pessoas negras e brancas, demonstrando essa diversidade e miscigenação do Brasil.
De um lado, é possível a interpretação de um embranquecimento da
sociedade brasileira, criticando um racismo enraizado desde a época da escravidão legal. O tema é abordado de maneira explendida pelo artista Modesto Brocos em seu quadro “A Redenção de Cam” (1895), que mostra uma família composta por uma senhora negra, um casal interracial entre uma mulher negra e um homem branco, e o filho deles. O pai admira com orgulho sua criança, que possui um tom de pele mais claro que o da mãe, que por sua vez, tem sua pele mais clara que a da senhora. Assim, sendo possível uma conexão temática com essas fotos do curta.
De outro modo, também é possível uma interpretação muito menos crítica.
Nos arquivos selecionados, as pessoas aparecem alegres, sempre bem próximas
umas às outras em tom de descontração, remetendo muito mais à ideia de
proximidade e paz, indo em direção oposta à ideologia racista.
O filme se encerra com outra fotografia, agora, acompanhada de uma
narração sobre a dança do “Pau de fitas”, uma dança folclórica originária da Europa, muito famosa em países como Espanha e Argentina. No retrato vemos em maioria participantes negros, outro ponto que força a ideia de integração entre povos e culturas. Enfim, como último ponto, quero trazer a presença de um cartaz no cenário da fotografia final da obra, contendo o nome do projeto em que participam as pessoas da foto, chamado: “Movimento e Expressão”.



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