‘Dirty Sánchez’: um tributo de feminilidade - Pedro Vilalba

“Dirty Sánchez”: o ato de utilizar fezes na área do buço do parceiro
sexual para imitar um bigode. Um nome estranho, diferente e nada
convencional que, definitivamente, para muitos, indicaria uma falta de noção na
escolha de um nome para um curta documental, ou até traria um suposto viés
humorístico escatológico. Entretanto, para esta obra de Letícia Cinema
Germanotta, acredito que encaixe perfeitamente.
O filme constitui-se de 3 atos bem divididos, com o primeiro possuindo
uma demarcação bem impactante no que diz respeito à contextualização,
enquanto os dois últimos estão diretamente relacionados com teorias políticas
de autores revolucionários contrários ao capitalismo: “O Fim do Homem”
(1992), de Francis Fukuyama, que indicaria o capitalismo como último estado
da humanidade, um ato falho e apocalíptico e “A Quarta Teoria Política” (2009),
de Alexsander Dugin, que traz uma crítica ao Liberalismo, ao Capitalismo e ao
Comunismo como ideias vigentes do iluminismo, trazendo uma ideia de
construção social voltada às complexidades culturais multipolares da
sociedade.
Na primeira parte, já fica extremamente clarificado uma das principais
questões abordadas pelo curta-metragem: a desconstrução do gênero, da
forma, dos ideais cis heteronormativos e a formação de uma identidade única:
o corpo travesti. Para mim, é bastante interessante como o próprio filme se
desenrola, uma vez que sempre constrói um ponto e um contra ponto direto
dessa discussão. Afinal, o que é gênero?
Aqui, já em seus primeiros minutos, o curta já evidencia o que talvez
seja a maior discussão da sociedade contemporânea. Em um senso comum
arcaico e estruturado com base nos preconceitos da sociedade patriarcal,
gênero seria inerente ao sexo de nascimento. Entretanto, para pensadores
mais modernos, como Margaret Mead e Judith Butler, o gênero entraria muito
mais num lugar de espectro cultural e de performance social, respectivamente.
No Brasil, isso foi muito discutido com o movimento travesti e os ideias
acerca de uma singularidade na forma de ser. Ao decorrer do filme, diversas
figuras excêntricas da sociedade da época são mostradas e uma identidade
própria é tomada para essa comunidade. Nem trans, nem homem, nem mulher,
mas algo que centralizasse um pouco de cada. Uma forma latina de
representar-se na sociedade como se quer ser, sem amarras sociais ligadas à
constituição binária. Isso tudo é progressivamente muito bem trabalhado e abre
espaço para as discussões que, nos próximos minutos, serão apresentadas,
em grande parte relacionadas ao indivíduo não-binário.
Paralelamente a isso, uma música estrondosa de clima apocalíptico e
imagens da espaçonave da SpaceX decolando são elementos continuamente
presentes, formando um crescendo, conforma nos aproximamos do clímax.
Com o objetivo claro de satirizar as preocupações dos líderes sociais, em
contraponto com a necessidade da manutenção das minorias emergentes.
Na segunda parte, a discussão começa a voltar-se ao meio político.
Tudo isso, claramente, muito ligado à realidade brasileira. Diversas bandeiras
começam a ser levantadas e as discussões de gênero e das minorias longe do
cisgênero começam a alcançar palanques necessários. Algo que, ainda soando
positivo, representa uma realidade bem triste e um senso de transformação
extremamente lento em nosso país, pois o Brasil continua sendo o país que
mais mata pessoas trans e travestis no mundo. No curta, isso é bem claro ao
colocar lado a lado as duas vertentes políticas que começam a crescer, junto
com a manutenção dessas questões na nossa sociedade. O alavancamento
das minorias sociais e de pessoas que estão distantes da modulação padrão
identitária é apenas virtual, tanto quanto o apoio assistencialista crucial para a
busca do aumento da expectativa de vida dessas pessoas é algo apenas
suposto.
Na terceira parte, a obra consegue ser mais crítica ainda, pois
demonstra que, com a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, também
vence a extrema-direita e toda mínima evolução de direito para pessoas dentro
do termo guarda-chuva transgênero torna-se vulnerabilizada. Enquanto isso, o
foguete sobe cada vez mais, a ponto de explodir. Como também eclodem a
sociedade contemporâneas em discussões que contrariam completamente o
direito de existir dessa comunidade marginalizada e, não obstante, o fascismo
contemporâneo.
A sequência final, com prints da internet focados na manutenção do ódio
a pessoas fora do padrão binário, utilizando de exemplo a própria diretora em
dado momento, sintetiza toda preocupação sobre o futuro das pessoas fora do
espectro cisgênero supracitada. O aumento da repressão é inversamente
proporcional com a tentativa de entender e encaixar o outro na sociedade
vigente, mostrando como ela, na verdade, já falhou com a manutenção de seus
indivíduos.
No fim, é bastante interessante a edição e a forma como a pesquisa foi
feita. As imagens de arquivo não possuem uma preocupação com limpeza,
manutenção de um ideal estético ou até qualidade de imagem. No entanto,
suas mensagens são claras e possuem uma progressão narrativa crítica bem
coesa, desfazendo-se da necessidade de legendas de contextualização ou até
mesmo um narrador. Vejo este como um documentário muito rico, tanto no que
se diz respeito a tema, quanto na forma como é elaborado.
Para sintetizar: é transgressivo, é satírico, é ácido. É “Dirty Sánchez”, de
Letícia Cinema Germanotta.



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