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FESTIVAL DE CINEMA 

UNIVERSITÁRIO

DE MATO GROSSO DO SUL

‘Dirty Sánchez’: um tributo de feminilidade - Pedro Vilalba

Foto do escritor: Pedro Vilalba
Pedro Vilalba
23 de set.
4 min de leitura

“Dirty Sánchez”: o ato de utilizar fezes na área do buço do parceiro

sexual para imitar um bigode. Um nome estranho, diferente e nada

convencional que, definitivamente, para muitos, indicaria uma falta de noção na

escolha de um nome para um curta documental, ou até traria um suposto viés

humorístico escatológico. Entretanto, para esta obra de Letícia Cinema

Germanotta, acredito que encaixe perfeitamente.

O filme constitui-se de 3 atos bem divididos, com o primeiro possuindo

uma demarcação bem impactante no que diz respeito à contextualização,

enquanto os dois últimos estão diretamente relacionados com teorias políticas

de autores revolucionários contrários ao capitalismo: “O Fim do Homem”

(1992), de Francis Fukuyama, que indicaria o capitalismo como último estado

da humanidade, um ato falho e apocalíptico e “A Quarta Teoria Política” (2009),

de Alexsander Dugin, que traz uma crítica ao Liberalismo, ao Capitalismo e ao

Comunismo como ideias vigentes do iluminismo, trazendo uma ideia de

construção social voltada às complexidades culturais multipolares da

sociedade.

Na primeira parte, já fica extremamente clarificado uma das principais

questões abordadas pelo curta-metragem: a desconstrução do gênero, da

forma, dos ideais cis heteronormativos e a formação de uma identidade única:

o corpo travesti. Para mim, é bastante interessante como o próprio filme se

desenrola, uma vez que sempre constrói um ponto e um contra ponto direto

dessa discussão. Afinal, o que é gênero?

Aqui, já em seus primeiros minutos, o curta já evidencia o que talvez

seja a maior discussão da sociedade contemporânea. Em um senso comum

arcaico e estruturado com base nos preconceitos da sociedade patriarcal,

gênero seria inerente ao sexo de nascimento. Entretanto, para pensadores

mais modernos, como Margaret Mead e Judith Butler, o gênero entraria muito

mais num lugar de espectro cultural e de performance social, respectivamente.

No Brasil, isso foi muito discutido com o movimento travesti e os ideias

acerca de uma singularidade na forma de ser. Ao decorrer do filme, diversas

figuras excêntricas da sociedade da época são mostradas e uma identidade

própria é tomada para essa comunidade. Nem trans, nem homem, nem mulher,

mas algo que centralizasse um pouco de cada. Uma forma latina de

representar-se na sociedade como se quer ser, sem amarras sociais ligadas à

constituição binária. Isso tudo é progressivamente muito bem trabalhado e abre

espaço para as discussões que, nos próximos minutos, serão apresentadas,

em grande parte relacionadas ao indivíduo não-binário.

Paralelamente a isso, uma música estrondosa de clima apocalíptico e

imagens da espaçonave da SpaceX decolando são elementos continuamente

presentes, formando um crescendo, conforma nos aproximamos do clímax.

Com o objetivo claro de satirizar as preocupações dos líderes sociais, em

contraponto com a necessidade da manutenção das minorias emergentes.

Na segunda parte, a discussão começa a voltar-se ao meio político.

Tudo isso, claramente, muito ligado à realidade brasileira. Diversas bandeiras

começam a ser levantadas e as discussões de gênero e das minorias longe do

cisgênero começam a alcançar palanques necessários. Algo que, ainda soando

positivo, representa uma realidade bem triste e um senso de transformação

extremamente lento em nosso país, pois o Brasil continua sendo o país que

mais mata pessoas trans e travestis no mundo. No curta, isso é bem claro ao

colocar lado a lado as duas vertentes políticas que começam a crescer, junto

com a manutenção dessas questões na nossa sociedade. O alavancamento

das minorias sociais e de pessoas que estão distantes da modulação padrão

identitária é apenas virtual, tanto quanto o apoio assistencialista crucial para a

busca do aumento da expectativa de vida dessas pessoas é algo apenas

suposto.

Na terceira parte, a obra consegue ser mais crítica ainda, pois

demonstra que, com a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, também

vence a extrema-direita e toda mínima evolução de direito para pessoas dentro

do termo guarda-chuva transgênero torna-se vulnerabilizada. Enquanto isso, o

foguete sobe cada vez mais, a ponto de explodir. Como também eclodem a

sociedade contemporâneas em discussões que contrariam completamente o

direito de existir dessa comunidade marginalizada e, não obstante, o fascismo

contemporâneo.

A sequência final, com prints da internet focados na manutenção do ódio

a pessoas fora do padrão binário, utilizando de exemplo a própria diretora em

dado momento, sintetiza toda preocupação sobre o futuro das pessoas fora do

espectro cisgênero supracitada. O aumento da repressão é inversamente

proporcional com a tentativa de entender e encaixar o outro na sociedade

vigente, mostrando como ela, na verdade, já falhou com a manutenção de seus

indivíduos.

No fim, é bastante interessante a edição e a forma como a pesquisa foi

feita. As imagens de arquivo não possuem uma preocupação com limpeza,

manutenção de um ideal estético ou até qualidade de imagem. No entanto,

suas mensagens são claras e possuem uma progressão narrativa crítica bem

coesa, desfazendo-se da necessidade de legendas de contextualização ou até

mesmo um narrador. Vejo este como um documentário muito rico, tanto no que

se diz respeito a tema, quanto na forma como é elaborado.

Para sintetizar: é transgressivo, é satírico, é ácido. É “Dirty Sánchez”, de

Letícia Cinema Germanotta.

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