Da televisão ao documentário: Nação Hip Hop- Amanda Nogueira

O hip hop consolidou-se como uma importante ferramenta de expressão
artística e resistência social das populações periféricas do Brasil. Nesse contexto, o
programa televisivo “Nação Hip Hop” surge como um espaço de divulgação e valorização das manifestações culturais ligadas ao movimento, contribuindo para a visibilidade de artistas e produções frequentemente marginalizadas pelos meios de comunicação tradicionais. O documentário “Nação Hip Hop: Cultura de Rua”,
dirigido e roteirizado por Laia Orisa, celebra o pioneirismo na televisão brasileira, sendo este o primeiro programa independente de TV aberta dedicado ao hip hop,explorando sua trajetória de desenvolvimento e sua relação com a sociedade.
Para compreender a proposta do documentário, é necessário considerar a
relevância cultural e social do movimento hip hop, cuja trajetória no Brasil está
profundamente relacionada à expressão das vivências periféricas. O hip hop foi uma importante ferramenta de denúncia no início dos anos 1980, impactando a
população de diferentes formas até os dias de hoje. De modo geral, a música retrata fatores como desigualdade social, pensamento crítico e identidade cultural
principalmente para as periferias, sendo uma das principais referências de
manifestação cultural até hoje. O Nação Hip Hop celebra essas características.
O documentário “Nação Hip Hop: Cultura de Rua” é o projeto vencedor do
10º edital de apoio ao Audiovisual Armando Carreirão 2021/2022, além de também
ser um projeto apoiado com os recursos da Lei Emergencial Paulo Gustavo. Seu
objetivo é o compartilhamento da experiência da equipe em relação a jornada de
desenvolvimento do programa de forma independente para a TV aberta. Logo de
cara, somos contemplados com a ideia de que o documentário não tenta mascarar
seu processo de produção, revelando os equipamentos utilizados e outros
momentos em que os membros entrevistados interagem diretamente com a equipe por trás das câmeras.
A identidade visual é muito bem estabelecida, se utiliza da animação de
rotoscopia no início e final do filme, incorporando elementos da arte de rua para
dentro do contexto cinematográfico. Tanto a fonte utilizada quanto os traços da arte
e as cores vibrantes podem ser facilmente reconhecidas como características do
graffiti. A música é quase constante e conversa com o que está sendo dito, sendo
este talvez o item mais importante dentro da integração da obra por simbolizar tudo
aquilo que moveu o projeto televisivo e move hoje o documentário apresentado.
Da composição do filme e sua montagem, várias imagens de arquivo da
“Nação Hip Hop” foram utilizadas como forma de comparação, reforço do que
estava sendo dito e representação da trajetória do programa. Em diversos
momentos essas imagens foram utilizadas de forma quase nostálgica em conjunto
com as palavras dos entrevistados, reforçando o momento narrado e a experiência
vivida por cada um deles. Também servindo como um meio para evidenciar o início do programa e como ele se dá nos dias de hoje.
As entrevistas, embora tenham esse aspecto tradicional do modelo de
documentário, passa uma proximidade com os entrevistados devido a forma
abordada que remete quase a uma conversa com um amigo. Esse aspecto de
informalidade também parece ser algo que tenta se aproximar da abordagem do
programa original, sendo uma escolha excelente feita pela diretora. A identidade do documentário não se sobrepõe à identidade do programa, pelo contrário, ela a
celebra ainda mantendo-se fiel a sua própria.



Amanda, muito feliz pelo seu texto, não pelo fato de ter sido um enfoque positivo sobre a obra, na sua reflexão, mas principalmente, por constatar que, de alguma forma, conseguimos atrai a sau atenção, para uma história de invisibilidade, se imaginar que o programa, que inspira o filme, foi ao ar, lá no incio dos anos 2000, quando num estado sulista e branco, falar de uma linguagem e expressão do povo negro e periférico, numa televisão aberta, era uma afronta aos meios culturais elititizados e academicos. Que bom que podemos compartilhar esta mensagem, mais de 20 anos após a produção e exibição de uma programa com uma linguagem contemporânea, e, tudo, de forma independente. Valeu .... obrigada