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DESVER

FESTIVAL DE CINEMA 

UNIVERSITÁRIO

DE MATO GROSSO DO SUL

  • Foto do escritorL. Cinema

Cinema de Intenção

Eu, L. Cinema, participante da cobertura do Festival Desver de Cinema Universitário e crítico designado, manifesto meu repúdio à decisão da curadoria do 5o Festival Desver de Cinema Universitário em aprovar Alto do Céu (2023) para a Mostra Competitiva do 5o Festival Desver de Cinema Universitário. É evidente que Alto do Céu não se encaixa na cosmologia do Festival Desver de Cinema Universitário. O festival foi concebido como uma forma de visibilidade aos graduandos de Cinema e Audiovisual, ou seja, cineastas que não estejam consolidados no cenário produtivo. Alto do Céu é dirigido pelo renomado Leo Tabosa, autor de Marie (2019), premiado com QUATRO Prêmios Kikitos no 470º Festival de Cinema de Gramado e “consagrado como um diretor de sucesso” (Ferreira, 2019). A obra de um autor como Leo Tabosa não deveria ser considerada apto a concorrer na Mostra Universitária devido a total discrepância de seu currículo com o do público-alvo e, principalmente, a estética de Alto do Céu não condiz com a de cinema universitário presente na vasta maioria das obras da Mostra Competitiva. Reitero que a nota de repúdio se aplica apenas à decisão da curadoria do 5o Festival Desver de Cinema Universitário, e não à Leo Tabosa e produção de Alto do Céu, visto que a obra é qualificada para integrar a Mostra Competitiva do 5o Festival Desver de Cinema Universitário segundo o artigo 6.1 do regulamento. Dito isso, urge a necessidade de uma reforma no regulamento de futuras Mostras Competitivas que se adequem aos padrões do Festival Desver de Cinema Universitário e aos projetos de extensão da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Segue a crítica cinematográfica de Alto do Céu em respeito à equipe técnica e autor.

Eis a trama do filme: Madalena sofre violência doméstica e se confessa na igreja. Ponto. É isto. Note que eu não especifiquei nenhum conflito do enredo, pois não há. A direção de Leo Tabosa acredita estar sendo incisiva em seu manifesto contra a Igreja Católica e os valores morais da sociedade. Mas a cena é só um texto corrido (que os atores não alcançam por estarem completamente presos no que é para ser dito no roteiro) gravado em uma decupagem muito pouca criativa.

A decupagem do filme claramente tenta apenas cumprir uma função narrativa, é possível entender a trama por ela e é só isso; apenas agarrada a classicidade proposta por Gramsci (Aggio, 2010). Tudo que é de visual no filme parece ser resultado de um exercício de direção, como se o filme estivesse mais preocupado em provar que sabe da técnica do que de fato usá-las para fazer cinema. Se quer aproximar a personagem do espectador, dê um close; se deseja movimentação, câmera na mão. E é isto pelo filme inteiro, não há inventividade na decupagem, só esses mecanismos clássicos. Já que o drama anti-Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo quer ser tão disruptivo socialmente, por que isso não é traduzido na forma?

Na cena de “conflito”, Madalena vai se confessar e dá vários sinais que o marido é um ser humano ruim, mais tarde é subentendido que ocorre violência doméstica. Seguindo a cena, o padre fala que tem que perdoar e que a moral cristã é assim e blá-blá-blá, Madalena sai da paróquia desiludida, coitada. Me machuca muito uma cena tão importante para a trama ser formulada desse jeito, com os atores presos no texto a uma decupagem muito pouco inspirada. Por que a confissão é um plano fixo com câmera na mão para formar um simulacro de autenticidade enquanto ocorre um texto de atuação fraca? Poxa, nesse momento eu pensei em deixar o filme rolando enquanto ia lavar a louça, já que a única coisa que é importante nesse momento é o texto. Eu tenho certeza que esse sentimento de apatia em relação ao visual é pior do que caso eu tivesse abominado o que eu observei. Na verdade, eu considero abominável essa mediocridade poética, em acreditar em uma força inexistente da imagem; que ousadia achar que um roteiro decorado e plano-contra-plano podem ser considerados subversivos, pois eu não enxergo isso na forma que esse filme fez! Usar só como ferramentas de diálogos me entristece por ser utilizado da forma mais genérica possível.

Talvez eu esteja exagerando e o espectador apenas ache que seja normal, mas estamos em um Festival de Cinema “Universitário”, curada por estudantes universitários que atuam a favor de um cinema universitário. Na minha visão, o festival é o espaço em que esquecemos do orçamento e abraçamos a criatividade em gravar as coisas mais belas das formas mais bizarras possíveis de acordo com a unidade da obra. Infelizmente, o curta não concorda com minha visão.

De fato, a cena final é a primazia do filme, com Madalena em casa sofrendo e nós, o público, sofrendo com ela ao ouvir esse som de caráter literalmente infernal. O áudio me fez sentir a presença de demônios, da mesma forma que a protagonista sofre quando seu marido chega. Esse momento é a hora do brilho da narrativa e foi filmado de forma que os realizadores merecem se orgulhar de serem cineastas. A sinestesia do som enlouquecido com uma personagem no seu limite, gritando como nunca, me toca profundamente, mas eu já me frustrei tanto com a falta de inventividade da obra toda que nesse momento sinto que falta unidade. Não como um pico de energia Hanekeano estimulado pelo ritmo lento da trama, é como se a decupagem e roteiro estivessem no automático até esta cena. Eu apenas lamento sobre a oportunidade perdida no todo com a obra.

Eu acredito que Alto do Céu sofre de uma problemática comum do cinema brasileiro contemporâneo. É sempre notável como os realizadores acreditam representar o apogeu da transgressão cinematográfica por abordarem questões sociais e um pouco de tabu quando me parece apenas mais uma tentativa de utilizar a homossexualidade e afins para abalar as estruturas sem acrescentar nada, ou seja, só pro cineasta parecer descolado. O filme utiliza o que já é convenção na sociedade progressista pós-moderna, a descrença em relação à igreja, e tenta dar um valor maior do que a forma que o próprio filme representa. É muito jogo seguro essa relação com a igreja, a sutileza do padre demonstra uma falha das instituições em resolver esses problemas. Mas o que eu sinto, na verdade, é uma falha em Madalena na comunicação e na do padre em não agir de forma mais acolhedora; como se o filme não conseguisse articular essa questão ser fazer o padre ser indiretamente ruim. Dá para perceber que existe uma escolha da obra entre manter a salubridade dos personagens ou a trama; a escolha pelos personagens não me agradou e me parece quebrar a unidade. Novamente, talvez eu sentiria esse prazer pelos personagens caso essa cena fosse filmada com criatividade e não apenas para replicar um discurso que acredita ser relevante apenas pelo tema.

Então, no fim, a não-prostituta Madalena não recebe o conforto que merece e um tema sério e necessário de ser debatido pela sociedade como a violência doméstica, é retratado da forma mais batida já conhecida pelo homem; sem reflexão sobre e nada de informativo a respeito do assunto. No fim, após o êxtase do clímax, eu senti apatia e, sinceramente, um pouco de dúvida sobre meus sentimentos; não sabia se tinha sentido nada ou se não tinha gostado do filme, acho que esse é o pior sentimento que eu poderia ter. Eu garanto que esse é o melhor veredicto que eu posso dar, mas talvez um mais adequado seria a sentença monopalavrática: “Inútil”.


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