Assassinato e investigação em animação - Pedro Davi

Ambientado no Brasil, na década de 1970, “Ato Final” é um filme do gênero
whodonnit, que seria, “quem fez”, ou melhor, “quem matou”. Nele acompanhamos Mateus, um jornalista estagiário investigando o assassinato de uma atriz. Ele se vê nas sombras de Miriam Matos que já é uma investigadora experiente, mas ainda tenta impressioná-la por sua admiração por ela.
“Ato Final” se destaca pela sua incrível execução na iluminação do ambiente.
A maneira que a luz é trabalhada nessa animação é hipnotizante: as luzes do palco
de teatro têm vida e irradiam perfeitamente o ambiente, criando sombras coerentes e bem finalizadas. Luz e sombra que não estão ali apenas por capricho, mas para adicionar o tom de drama e mistério na narrativa investigativa que nos cerca.
O que “Ato Final” não peca é na execução, a animação 2D tem um traço
artístico bonito, mas que ganha força nos planos cinematográficos, como Plongée,
contra-plongée over-the-shoulder e por aí vai. A construção de profundidade
somada a esses planos postos na animação enriquece esse curta e agregam a
linguagem cinematográfica no desenho.
Isso sem falar na troca de estilo da animação ao irmos para os relatos dos
suspeitos, cada ponto de vista segue com uma construção, e traços diferentes, cada um carregando uma semiótica. O depoimento de Geraldo como um homem de pavio
curto e rigoroso é feito com traços mais geométricos e pontudos. Logo depois,
temos Thomas, que por estar bêbado traz para a tela traços que se movimentam
como ondas e se assemelham a aquarela. Por final, chegamos a Jade, que se
sentia desvalorizada e que no futuro até chega a ser injustiçada: então nada melhor que em seu relato fazer como se fosse um teatro de sombras, para combinar com o sentimento de não ser vista verdadeiramente e quando notada, não ser pela verdade, tal qual uma sombra, que não passa de uma ilusão.
Mas focando no som, a trilha sonora construiu a atmosfera perfeita para o
suspense da investigação, o curta não seria tão impactante se não fosse pela trilha
sonora acompanhando as cenas adequadamente com seu tom misterioso.
A cena final, com Mateus descobrindo toda verdade e indo até o telefone fora
do teatro, com aquele piano tocando no fundo, me fez arrepiar. Final esse inclusive
que mostra que pessoas de destaque no seu ramo de trabalho nem sempre seguem uma trajetória tão correta para estar no topo, e Mateus dá de cara com essa hostilidade. Porém, por mais que essa trama dos problemas do mercado de trabalho tenha se revelado, eu não sinto que ela é tão bem desenvolvida junto da
investigação. O mistério de quem matou se sobressai e é o que mais importa aqui.
De qualquer forma, “Ato Final” é um exemplo de animação a se seguir.



Obrigado pelas lindas palavras! Adorei demais a análise! Que bom que gostaram do filme, especialmente da trilha sonora rss