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DESVER

FESTIVAL DE CINEMA 

UNIVERSITÁRIO

DE MATO GROSSO DO SUL

‘A última locadora da cidade’ - Presença que permanece além do material - Gabriel Morábito

Foto do escritor: Gabriel Reis
Gabriel Reis
25 de set.
2 min de leitura

Mesmo pertencendo a uma geração que, tecnicamente, não

deveria ter crescido em locadoras, acabei me desenvolvendo em um

ambiente muito mais analógico do que propriamente digital, em grande

parte por ter passado boa parte da vida no interior. Também não

ajudava o fato de que ficava a maior parte do tempo na casa da minha

avó, um espaço que, por sua vez, apresentava um ritmo tecnológico

ainda mais defasado em relação ao restante da cidade. Diante dessa

realidade, construí minha relação inicial com o cinema, que mais tarde

amadureceu em genuína cinefilia, por intermédio de um cinema de rua e

de duas locadoras locais. Hoje, nenhuma delas existe mais; tiveram o

inevitável fim que a tecnologia impôs a esses espaços. Acredito que

resida aí o principal motivo da minha identificação com a obra; embora

eu não compartilhe o laço familiar que a protagonista Mariana mantém

com a locadora, guardo inúmeras memórias daquele espaço, que na

minha infância também parecia mágico e misterioso.

O recurso da montagem paralela entre o passado e o presente foi

uma escolha formal muito eficiente para construir o histórico das duas

personagens centrais: Mariana e a própria locadora. É interessante

observar o contraste na encenação dependendo da época retratada. O

passado analógico e colorido, impulsionado pelo dinamismo da câmera

na mão conduzida por Mariana criança, revela uma comunidade que

orbitava aquele estabelecimento (chegando a celebrar ali o aniversário

da filha). Em contrapartida, o presente surge frio, cinza e azulado, com

os cartazes remanescentes descolando das paredes. De toda aquela

comunidade vibrante, restou apenas Mariana, hoje adulta, como o

último bastião de um lugar que só sobrevive como ruína daquele

registrado nas fitas caseiras de sua família.

A protagonista, contudo, já não parece nutrir o mesmo afeto pelo

local. Marcada por visível apatia, ela transmite a sensação de que todo

o encantamento de outrora se esvaiu, dissolvendo-se como a fumaça do

cigarro que fuma atrás do balcão. Essa letargia é quebrada pela

chegada de Seu Jordano, antigo cliente e frequentador assíduo, que

surge com um pedaço de bolo para comemorar o aniversário do


estabelecimento e entrega a ela uma fita VHS com o nome de Mariana.

Embora a protagonista hesite em corresponder à energia do homem, ela

acaba cedendo e coloca a fita para que ambos assistam juntos.

Durante a exibição, ressurge aquele passado de prosperidade e

otimismo, o que ganha contornos agridoces diante do destino inevitável

que aguarda o espaço. Ainda assim, considero comovente a

constatação de que um momento tão genuíno de afeto consiga romper

as barreiras do tempo graças ao registro em fita magnética. O filme

parece querer transmitir justamente essa mensagem, sobretudo quando

o pai de Mariana reflete, no vídeo, sobre os “verdadeiros momentos de

cinema”, instantes cuja força reside na pureza do sentimento e da

intenção. Ao saborear aquele pedaço de bolo no desfecho, é provável

que Mariana tenha resgatado algo dessa essência: uma forma de

revisitar o passado não apenas com luto, mas com a capacidade de

reconhecer e acolher o que um dia sentiu.

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