‘A última locadora da cidade’ - Presença que permanece além do material - Gabriel Morábito

Mesmo pertencendo a uma geração que, tecnicamente, não
deveria ter crescido em locadoras, acabei me desenvolvendo em um
ambiente muito mais analógico do que propriamente digital, em grande
parte por ter passado boa parte da vida no interior. Também não
ajudava o fato de que ficava a maior parte do tempo na casa da minha
avó, um espaço que, por sua vez, apresentava um ritmo tecnológico
ainda mais defasado em relação ao restante da cidade. Diante dessa
realidade, construí minha relação inicial com o cinema, que mais tarde
amadureceu em genuína cinefilia, por intermédio de um cinema de rua e
de duas locadoras locais. Hoje, nenhuma delas existe mais; tiveram o
inevitável fim que a tecnologia impôs a esses espaços. Acredito que
resida aí o principal motivo da minha identificação com a obra; embora
eu não compartilhe o laço familiar que a protagonista Mariana mantém
com a locadora, guardo inúmeras memórias daquele espaço, que na
minha infância também parecia mágico e misterioso.
O recurso da montagem paralela entre o passado e o presente foi
uma escolha formal muito eficiente para construir o histórico das duas
personagens centrais: Mariana e a própria locadora. É interessante
observar o contraste na encenação dependendo da época retratada. O
passado analógico e colorido, impulsionado pelo dinamismo da câmera
na mão conduzida por Mariana criança, revela uma comunidade que
orbitava aquele estabelecimento (chegando a celebrar ali o aniversário
da filha). Em contrapartida, o presente surge frio, cinza e azulado, com
os cartazes remanescentes descolando das paredes. De toda aquela
comunidade vibrante, restou apenas Mariana, hoje adulta, como o
último bastião de um lugar que só sobrevive como ruína daquele
registrado nas fitas caseiras de sua família.
A protagonista, contudo, já não parece nutrir o mesmo afeto pelo
local. Marcada por visível apatia, ela transmite a sensação de que todo
o encantamento de outrora se esvaiu, dissolvendo-se como a fumaça do
cigarro que fuma atrás do balcão. Essa letargia é quebrada pela
chegada de Seu Jordano, antigo cliente e frequentador assíduo, que
surge com um pedaço de bolo para comemorar o aniversário do
estabelecimento e entrega a ela uma fita VHS com o nome de Mariana.
Embora a protagonista hesite em corresponder à energia do homem, ela
acaba cedendo e coloca a fita para que ambos assistam juntos.
Durante a exibição, ressurge aquele passado de prosperidade e
otimismo, o que ganha contornos agridoces diante do destino inevitável
que aguarda o espaço. Ainda assim, considero comovente a
constatação de que um momento tão genuíno de afeto consiga romper
as barreiras do tempo graças ao registro em fita magnética. O filme
parece querer transmitir justamente essa mensagem, sobretudo quando
o pai de Mariana reflete, no vídeo, sobre os “verdadeiros momentos de
cinema”, instantes cuja força reside na pureza do sentimento e da
intenção. Ao saborear aquele pedaço de bolo no desfecho, é provável
que Mariana tenha resgatado algo dessa essência: uma forma de
revisitar o passado não apenas com luto, mas com a capacidade de
reconhecer e acolher o que um dia sentiu.



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