• Felipe Feitosa

Tambor ou bola?

As instituições brasileiras rotineiramente falham em alcançar e suprir as demandas das várias comunidades periféricas que existem ao longo de nossa vastidão continental. Por isso, para discutir Tambor ou bola é essencial falar sobre essa questão que está sempre em voga para os meninos e meninas que advém destes espaços.

Eleger um futuro para si é uma responsabilidade gigantesca e que, infelizmente no caso desses jovens, parece ser sempre um momento que os põe entre a escolha de um sonho e uma realidade sofrida. Não acho que existem apenas estas opções, mas me parece que essa dicotomia é imposta às crianças e adolescentes que estão à margem da sociedade por uma estrutura social arbitrária e repartidora. Ainda assim, eu digo isso para contextualizar e introduzir a temática do filme através desse título que mexeu bastante comigo.

Wilson Santos é o personagem principal de Tambor ou Bola. Percussionista de origem quilombola. Ele se esforçou desde pequeno para conquistar seus objetivos e adquirir uma cultura que não lhe alcançava. É revoltante ouvi-lo falar sobre como precisava buscar livros no lixo para aprender a ler por conta própria, não pelo esforço admirável do pequeno, mas pela falta que alguns mecanismos de acesso fazem na vida das pessoas.

Felizmente, Tambor ou Bola é um documentário que mostra uma possibilidade para além desses problemas. Ao misturar entrevista e encenação, o filme constrói uma condução muito particular por entre os causos do percussionista. Alinhando sua história na comunidade com a importância que ele exerce ao retornar para ela como um agente de mudança.

O filme começa com o hipnotizante batuque de um tambor e, aos poucos, vão surgindo em tela imagens do percussionista. A obra tem um apelo técnico impressionante: usando de uma iluminação e correção de cor que caminham para tons mais amarelados, o documentário acaba misturando uma paleta mais recorrente nas culturas de matriz africana com uma fotografia quase dourada – junto desse batuque ritmado, isso gera um calor que se faz envolvente e arrebatador ao longo de toda a sessão.

Existe uma plasticidade na forma como se posiciona a câmera, compondo de forma milimétrica, e dando uma beleza visual única para essa comunidade que normalmente não receberia destaque.

Mesmo que o “astro” aqui seja o personagem de Wilson Santos, a direção não permite que ele roube a cena por completo. Apesar do protagonista ser a coluna estrutural do filme, o diretor se aproveita das suas falas (principalmente quando remetem a esse corpo social) para intercalar a montagem da entrevista com momentos de reencenação da vida do personagem, criando situações que extrapolam o olhar intimista voltado para Wilson – retornando a comunidade e as pessoas que lá vivem.

Assim, o filme não só se estabelece através de um ritmo interessante – pois não se torna uma maçante entrevista com uma única pessoa – como também passa a dialogar em certo sentido com o trabalho que o próprio percussionista faz na comunidade. Este jovem apaixonado por música pode ser visto como uma versão jovem de Wilson, como também é reflexo de diversos outros pequenos sonhadores.

Contudo, é na banda sonora que Tambor ou bola tem seu maior destaque. É um documentário muito sóbrio, sem muitas experimentações, mas que aproveita da trilha sonora feita por instrumentos de percussão para ir conquistando o espectador. Sérgio Onofre, o diretor, tem noção da força que esse ritmo possui e abusa dele do jeito certo – intercalando falas de Santos com esses momentos de reencenação através das batidas do tambor. Em determinados momentos, inclusive, ele nos deixa a sós com o musicista e o instrumento, permitindo que a câmera seja embalada pelo artista e sua performance.

Tambor ou bola é, no fim de tudo, um documentário muito bonito. Tocante graças a um personagem extremamente carismático, além de ter uma abordagem muito sincera e inteligente por parte de seu diretor, que nos envolve numa narrativa que, para além de Wilson Santos, é a história de vários jovens brasileiros.

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