• Marco Antônio Bonatelli

Cinema pra Quem?

O Último Cinema de Rua é uma obra que denuncia o elitismo dos cinemas de shopping enquanto discursa sobre outra forma de agressão cultural: a maneira com que mulheres negras e gordas (não) são retratadas em tela. Além disso, ele dedica um tempo no tema os impactos da pandemia na vida dos trabalhadores das salas de exibição que foram fechadas por conta da crise, e se debruça sobre a situação difícil pela qual essas pessoas têm de passar no seu dia-a-dia para sobreviver. Contudo, eu senti que houve um certo desperdício da própria premissa apresentada, e minha experiência final acabou sendo meio blasé.

Escrevo este texto logo depois de ter visto outra obra que me ofendeu profundamente, e é bem provável que eu não tenha pego muitas das nuances ou pontos essenciais para se compor a experiência. Porém, eu tinha que entregar um texto sobre este filme e não posso deixar de ser sincero quanto ao que eu senti. E, bem, é isso. Se o filme não me machucou, também não me fez esquecer da outra experiência e acabou passando um pouco batido. Esta foi a crítica que eu mais revisei – porque acredito que não é culpa desta obra o que eu estou sentindo no momento e não é justo eu descontar nela –, mas, ainda assim, devo dizer que não gosto do resultado final. Vamos lá.

Os temas não são muito aprofundados e a ambição que eu senti como sendo um tanto desmedida por parte dos realizadores (em discursar sobre os diversos temas descritos) acaba enfraquecendo o projeto de forma bastante pronunciada. Particularmente, eu não consegui ver nenhum aprofundamento real em nenhum assunto, e penso que o diretor Marçal Vianna força a barra em diversos momentos tentando criar uma certa em empatia de nossa para com seus personagens – como quando coloca os quatro protagonistas para comerem macarrão com salsicha ao mesmo tempo em que conversam sobre a falta de dinheiro para comprar os alimentos da semana seguinte. Além disso – e nisso eu vou ser mais duro –, ele dá um tapinha nas próprias costas no momento em que coloca uma de suas intérpretes falando que eles “arrasaram” na feitura do filme diretamente a câmera na cena final (os personagens de O Último Cinema de Rua também estão fazendo um filme – metalinguagem que parece querer justificar o projeto, mas não é muito bem desenvolvida).

Outro ponto negativo para mim foi o som. Temos uma mixagem e edição sonoras que são muito precárias (cena da mangueira), além de uma captação de som direto não muito bem-feita. Que fique posto: eu não estou atacando, de forma alguma, a falta de um microfone profissional no set, mas existem alternativas para minimizar os ruídos de áudio que, ao que parece, foram relegadas aqui. Até em momentos mais simples, como diálogos em ambientes fechados, eu tive de fazer um certo esforço para decifrar o que estava sendo dito. A dicção dos atores também não ajuda: se houve algum tipo de dublagem na pós-produção, ela não funcionou. O resultado é sempre o mesmo som abafado, estando os intérpretes de máscara ou não. Além disso, não há uma boa noção sonora de espaço (ouvimos duas personagens ao longe; corta pra perto, ouvimos elas conversando no mesmo volume que antes). E, de verdade, eu não sei se a feitura de um filme sem recursos está empregada na poética de que a arte pode ser feita dessa maneira; não me pareceu intencional, é o que quero dizer.

As provocações feitas por Vianna, em suma, não me suscitaram interesse. Porque não se interligam bem entre si ou despertam alguma curiosidade para saber como o realizador iria tratar do debate (seja ele o das salas de cinema, o da falta de representatividade ou o do desemprego crescente na pandemia). O projeto, em suma, é um tanto perdido e parece faltar um fio condutor que nos carregue ao longo desta estória.

Mas, como diria Buñuel, todo filme tem aqueles cinco minutos mágicos que merecem nossa atenção, e aqui não é diferente. O depoimento de uma das personagens – a que queria ser atriz, mas foi obrigada a se tornar cozinheira por conta da crise (e a única pela qual eu empatizei) – é verdadeiramente tocante e profundo. Não sei se a história narrada é verdade, mas a entrega da atriz para dar o texto é muito impressionante. Uma pena que os amigos dela não recebam tratamento parecido e acabam sendo usados mais como dispositivos de trama do que como personagens – dispositivos estes que conduzem àquela conclusão meio egocêntrica do diretor.

Oque nos é apresentado, dessa forma, não agride e nem faz nada de estapafúrdio com os temas sérios, mas também não sei se ajuda muito a desenvolvê-los. Talvez, só o fato de a obra existir dessa forma – ser este grito de empoderamento que se impõe e é impossível de não ser ouvido (quando acessado) já seja, por si só, um motivo que justifique a existência do projeto. Talvez, esta seja a única forma de se fazer entender num mundo tão preconceituoso e elitista quanto o que os personagens e nós vivemos: se certificando de que todos saibam que os renegados estão se impondo. Mas eu não consegui sentir o que penso ser o cerne da questão proposta e fiquei um pouco decepcionado com isso.

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