• Marco Antônio Bonatelli

Paloma e a Revolução

Paloma é uma pomba que engole um chip de celular e ganha consciência quanto a sua situação de... bem, de pomba. Ela, então, fica puta com tudo aquilo (seja o que aquilo for – visto que Paloma chama os seres-humanos-opressores-de-aves de “pernas”) e resolve começar um levante. Spoiler: não dá certo. Acho que com essa premissa curiosa é fácil perceber que Paloma, de Alex Reis, é um filme chamativo e cativante, que nos conquista facilmente e nos permite desfrutar de sua jornada de forma agradável e divertida.

A animação é primorosa, com um certo deboche nos traços e uma mistura bastante diferente de estilos (temos personagens em cartoon e cenários em rotoscopia, por exemplo), além de uma integração das imagens com os sons que faz uso do Mickey Mousing para ajudar na construção do universo proposto. Temos, também, momentos de experimentação onde o filme parte para a brincadeira com o digital e se permite abrir portas a uma estética mais psicodélica banhada a muitas cores e anos 80. Enfim, é aguçada a forma com que a noção de figura-fundo se faz presente aqui: por vezes, a rotoscopia dos cenários dá lugar a um background monocromático que nos permite focar no que é o motivo da ação. Fora isso, devo dizer que foi bacana ver como a capital do meu estado natal foi representada – e reencontrar a Sé, mesmo que por meio de animação, foi bastante gratificante.

Contudo, não consigo deixar de pensar que poética e estética não se alinham bem neste curta. Ele parece, mesmo nos seus momentos mais jocosos, querer ainda assim falar algo sério (um mendigo é usado para reforçar o subtexto de classes e ajudar na construção da temática existencialista que permeia a obra), fato que parece se perder em meio a forma com que tudo é contado. Eu entendo que, quando vai tentar começar a revolução, Paloma fala de forma engraçada e divertida, mas, ainda assim, a obra não parece querer dar risada do sentimento revolucionário em si, mas de sua personagem surtada agindo de forma emocionada. O que temos, então, é essa busca por um “eu” que passa a guiar Paloma (líder, justiceira, pomba...) – uma ave com consciência de classe que não pode fazer nada quanto aquilo, pois suas companheiras são conformistas e saltam em direção a qualquer grão de comida que cai no chão (a cena em que Paloma discursa frente ao homem segurando um pastel é brilhantemente hilária).

E, portanto, quando chegamos em um terceiro ato que Paloma, por sua vez, se dá conta de que, pelo menos, ela pode cagar na cabeça da sociedade, de fato o discurso acaba até fazendo algum sentido quando analisado de forma isolada(na coerência interna de si mesmo, eu digo) – pois funciona junto com a comédia proposta. Mas, quando percebi que aquela lisergia descrita anteriormente acaba sendo usada em um momento bastante pontual – e que tem uma função narrativa bem-definida –, fica claro para mim que este se trata de mais um caso de Sociedade Alternativado Raul (Viva!): que de alternativa só tem o nome e quer mais é ser pop, mesmo.

Meu querido amigo, Felipe Feitosa, me disse que se o filme alinhasse estética e poética, eu também iria reclamar – e ele tem razão. Mas isso não significa que eu não possa respeitar um resultado final que faz o que se propõe, por mais que não goste dele (se esse fosse o caso, claro; e não soasse ofensivo, obviamente). Temos, enfim, um niilismo barato e que se assume desta forma; um filme que em momento algum almeja ser mais do que é, mas parece querer ser outra coisa. O diretor brinca com quase tudo, e esse quase surge justamente para tentar gerar alguma reflexão no espectador mais interessado (o mendigo tem uma representação meio messiânica aqui), mas não sei se isso vai surtir algum efeito na cabeça no espectador – de novo, porque o lado cômico do resultado final se sobressai demais.

Enfim, o que temos aqui é este exercício bacana (mas não exatamente coerente) de perpassar pelas noções de levante, identidade, cosmopolitismo, alienação e consciência de classe com bom-humor e inteligência. De fato, as pombas podem voar mais alto do que nós, pernas, e Paloma parece ter algum conforto na conclusão do curta que é mais uma tirada do que qualquer outra coisa – com o tema de ilusão social e coletiva, neste caso. É bem-feito e bem-executado, mas não exatamente revolucionário.

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