• Felipe Feitosa

Desconectado do Mundo

Rotineiramente acabo me deparando com filmes como NãO SIgNAL. O cinema de experimentações é sempre muito interessante por conta de suas possibilidades diversas de investigação dos produtos audiovisuais. Historicamente, a cultura cinematográfica das videoartes surge em meados dos anos sessenta, e o apego dos realizadores pela imagem ruidosa era parte intrínseca e incontornável daquilo que o registro por meio do vídeo permitia à época.

Logicamente, o avanço tecnológico mudou o jeito como se faz esse tipo de cinema, e as investigações pelas imagens ruidosas deixaram de ser uma característica formal com a qual os realizadores tinham de lidar para se tornar uma escolha estética, são escolhas que ao apelar para a distorção acabam nos deslocando de uma relação usual com a imagem e mudam nossa forma de consumo. Quando o vídeo dá lugar ao digital, todo esse formato de registro se barateia e ganha, concomitantemente, mais qualidade.

Esta escolha arbitrária de deformar as imagens pode ser bastante incômoda, dependendo do caso. É uma adulteração plástica feita pelo diretor visando, de alguma forma, a construção de um sentimento, o estímulo de algum sentido, a promoção de alguma experiência. Em NãO SIgNAL, Victor de Lucca trabalha com a dimensão pictórica de um conjunto de imagens que, a priori, são irreconhecíveis.

O curta começa com um texto exposto em tela, mas o efeito que espelha a imagem a partir do centro torna os caracteres identificáveis. Se não fosse pelo título do filme, que acabou me sugerindo o que estava escrito, eu não teria chegado à conclusão de que se trata da frase: No Signal. O texto que remete a uma transmissão, junto do formato de tela mais quadrado, me convida a ver este universo por um display que evoca o da televisão.

Rapidamente, a mensagem desaparece e o que a substitui no display é um conjunto de experimentações variadas. Por meio de filtros e estilizações completamente arbitrárias, Lucca apresenta uma imagem que existe, neste primeiro momento, com uma simetria única que apresenta os horrores da imagem deformada.

As formas espelhadas que se repetem e se transformam paralelamente são abstratas o suficiente para que o nosso cérebro, tomado pelo irreconhecível daquele produto, faça o trabalho de construir o sentido que bem lhe interessar.

Existe um horror e uma sensação de pavor que se instaura no filme, não só pela carga pesada de efeitos que compõe as imagens, mas também pelo acompanhamento de uma banda sonora que acentua, através de sons ruidosos e agressivos, esta dimensão violenta dos aspectos monstruosos que envolvem o filme. Seja pelos ruídos de tom mais grave, seja pelas imagens de formas incomuns, seja pela vulgaridade da forma, é uma obra que vai nos gerar desconforto, nos deixar apreensivos e em certa medida pode despertar o medo.

NãO SIgNAL, em certa medida, remete aos testes psicológicos de Rorschach. Essas figuras que perambulam no display apelam para nós, espectadores, e nos permitem divagar de forma única por entre as várias formas que o filme apresenta. A nossa mente trabalha em conjunto com a edição da obra e reforça toda a sugestão de terror que emerge dos diversos apelos estilísticos do diretor.

As imagens, assim como sugerido pelo texto que abre e fecha o filme, estão desconectadas e passam a existir de forma isolada do mundo. Dentro deste período ligeiro de 3 minutos e 45 segundos, nós vemos formas que não vão dialogar com a realidade e que vão encontrar na dimensão pictórica do discurso aquilo que tem de mais valioso: permitir que o espectador projete a si mesmo na tela.

Infelizmente, Vitor de Lucca me parece abandonar um pouco essa dimensão mais sugestiva do seu filme – suas figuras ganham, em alguns momentos, um contorno muito bem definido. A obra não caminha para o naturalismo, mas as experimentações perdem intensidade, permitindo que o produto seja mais ilustrativo.

Isto acaba delineando uma fronteira para o espectador – pelo menos foi assim para mim que, quando vi nas nuances do estilo objetos reconhecíveis, acabei sendo arrancado do mar de possibilidades em que eu estava me afogando. Sinceramente, às vezes me parece melhor deixar que aprendam a nadar sozinho.

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