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DESVER

FESTIVAL DE CINEMA 

UNIVERSITÁRIO

DE MATO GROSSO DO SUL

  • Foto do escritorLucas Adriano

Uma vida pacífica, mas nem tanto

Uma vida pacífica, mas abruptamente interrompida. O curta de stop-motion Coaxo se constrói a partir de uma premissa bem simples e acompanhamos a rotina de um sapo fazendeiro no sítio, coisa que vi poucas vezes no cinema. No entanto, essa paz vira de pernas para o ar quando um barulho no matagal o deixa alerta.

Um dos primeiros detalhes que reparei quando assisti ao filme foi o uso de cores vibrantes e contrastantes em todo o cenário do começo do filme, o que me fez ter a sensação de estar em frente simultaneamente a uma fazenda normal e um sonho. Uma nuvem passa ao fundo, como se estivesse sendo empurrada pelo vento. Na primeira vez que assisti ao curta, tal detalhe passou despercebido, e isso me agradou, pois até mesmo os detalhes mais discretos foram enfatizados. Logo depois, as mudas de plantas se movem ao vento. A atenção a esses tipos de detalhes me faz sentir que estou sentado ao lado do protagonista, observando o mundo pacato como se ele realmente existisse. Sem isso, a única coisa “viva” ali seriam os personagens.

O sapinho começa a pescar numa pequena poça. Passa a tarde inteira realizando a tarefa e depois dorme encostado numa pedra. Em todo esse período, as nuvens continuam a ser empurradas pelo vento, as vitórias-régias deslizam sobre a água, o balde começa a se encher de peixes pescados e uma galinha compõe a cena. Tudo isso não só dá vida ao mundo, como também o caracteriza como uma fazenda, lugar propício para uma vida pacífica. A “anima” (alma em latim) de qualquer animação se dá por meio de diversas formas. Entre elas, a mise-en-scenè. Em todas as experiências que tive como apreciador de stop motion, percebi que o maior desafio dessa técnica é passar a sensação de movimento no máximo possível de objetos. Obviamente, a terra não precisa se mexer, mas sempre é um detalhe bem-vindo para quebrar o stop e enfatizar o motion. Quando um filme faz uso frequente de saltos espaçosos entre uma imagem e outra, eu me sinto distanciado da história que está sendo contada. Isso não acontece neste curta, que tem uma movimentação fluida e bem metrificada.

O sapinho acorda à noite, após um longo dia de trabalho. Como estava acostumado àquela rotina, dormir encostado numa pedra a alguns metros de sua casa não parecia uma má ideia. No entanto, ele decide dar uma olhada no matagal ali perto. Como parece estar com medo de haver algum perigo escondido na escuridão, ele se assusta com o som de um pássaro que não aparece no quadro. A vivacidade da história também se dá pelo aspecto sonoro, então não se torna necessária a aparência do animal. Os barulhos, a escuridão, o matagal alto, todos esses elementos do gênero de horror geram suspense e deixam claro que algo ruim vai acontecer a ele. Como criei empatia com ele durante o filme, o perigo que o ameaça também me persegue, ainda mais por ser um sapinho tão inocente. O sapo continua a andar, o vento ainda sopra as plantas. Um objeto estranho começa a rodeá-lo, como se estivesse tentando caçá-lo. Esse primeiro momento de suspense apenas anuncia que o perigo está por vir, mas já instiga um leve medo. Deparando-se com outro objeto ainda mais ameaçador, o sapinho recua e pega sua pequena pá para se defender. Alinhado com a lua vermelha, é mostrado o que parece ser uma torre balançando e produzindo o som característico de um chocalho. O ângulo da câmera passa a ideia de inferioridade do pequeno sapo em frente a um perigo literalmente imenso. A cena basicamente diz que o último dia dele chegou muito antes do esperado. Assim como ele, senti medo do que estava por vir. A única diferença entre nós dois é o ponto de vista, que varia entre a visão dele e a do espectador que tudo vê mas não pode intervir. Quando a câmera mostra novamente a presa, o predador está logo atrás. Assim como o céu, sua pele azul escura contrasta com o círculo vermelho do olho sanguinário. O sapo recua novamente, mas esbarra na cobra.

Na cena final, o pequeno fazendeiro está sentado dentro da barriga da cobra, acampando como num dia qualquer. Sua vida pacífica se tornou um pouco menos pacífica, mas pelo menos agora não precisa mais pescar ou colher as plantações. Nem nada mais, já que seus últimos momentos de vida se resumem a esperar o destino, mais conhecido como digestão, chegar. Embora essa cena me passe uma leve ideia de paz, não consigo me sentir tranquilo ao ver que a grande aventura do sapinho está prestes a se finalizar repentinamente.

Outro desafio característico de qualquer animação é fazer cada segundo valer a pena e contar o máximo possível. Até quando não há progressão na narrativa, o mundo continua se movendo e consumindo tempo e esforço. O Coaxo consegue trilhar as ações de modo que me mantém engajado. A empatia que sinto pelo sapinho me faz compartilhar de seus sentimentos e aventuras. A apresentação do mundo ficcional como um lugar pacífico e a inversão dessa ideia logo em seguida é um recurso interessante que gosto de ver em qualquer tipo de história. Mostrar os dois lados da mesma moeda é sempre bem-vindo para enriquecer um universo aparentemente superficial. Tudo é medido para interagir entre si e completar o curta.


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