• Alessandra Moura

Um brinde à arte!

Marginália Carne trata sobre uma companhia de teatro que decide homenagear seu dono, Beto Carvalho, desaparecido há meses. Os atores, então, encenam a obra teatral, escrita pelo dramaturgo, e que recebe o mesmo título do curta-metragem, que se passa no inferno, em meio a um banquete.

A obra dirigida por Marcus Benjamin Figueiredo traz uma montagem mesclada de duas histórias. A primeira, e que ganha mais tempo de tela, é a ficcional: Maria Bonita faz um jantar no inferno e conta com convidados também diabólicos que questionam a ausência de Lampião. Já a segunda, exibe o paradeiro de outro desaparecido: o dramaturgo Beto Carvalho. Assim, as histórias se complementam e encaixam, evidenciando que a vida pode imitar a arte.

O uso da metalinguagem é inegável em Marginália Carne. Atores interpretando atores de teatro–que fazem do exagero muito presente em suas atuações–me aproximaram do mundo teatral, remetendo a lembranças pessoais que tive nestes espaços e fazendo com que eu me sentisse sentada na plateia de um. Já as personagens interpretadas externalizam a miscigenação encontrada no Brasil: figuras como Mefistófoles e Sucubbus, unidos em cena à Corisco e Maria Bonita, indicam a familiaridade entre esses símbolos de diferentes culturas e épocas.

Marginália Carne, assim, revela um aspecto modernista. Esse movimento prezava a valorização da nacionalidade e representava o desejo de transmitir isso através da arte. O curta-metragem insiste, também, no discurso de reverenciar a cultura brasileira, apresentando personagens típicos do Nordeste e reconhecendo que as nossas manifestações são derivadas de outras origens. Esse aspecto pode ser percebido através do figurino e objetos colocados em cena, por exemplo, que remetem a características indígenas e africanas.

Lampião é uma dessas figuras. Em diversos momentos é possível perceber os outros referindo-se a ele como Lúcifer, e Maria Bonita acaba sendo conhecida como rainha do inferno. Tendo isso em vista, o curta-metragem usa dessa demonização para indicar a marginalização que essas representações regionais são inseridas e faz uma crítica a isso em seu discurso final.

Para criar a atmosfera diabólica há, além dos personagens, o uso da fotografia que entrega planos longos e filmados sem estabilidade. O vermelho usado para iluminar o ambiente me remeteu a Clímax, obra de Gaspar Noé que também faz uso predominante dessa cor para indicar o caos. É notável, também, a inserção de imagens com câmeras noturnas, tanto dos atores na coxia quanto da plateia, que em um primeiro momento me pareceram inúteis, mas que, posteriormente, foram do meu agrado por causarem um estranhamento interessante de ser sentido.

A sensação de desconforto me acompanhou durante os dezoito minutos de curta-metragem, fazendo-me passear também por outros sentimentos. Inicialmente julguei a história como confusa, mas, à medida que o tempo foi passando, fui ficando imersa e encantada com a misticidade de Marginália Carne (apesar de ainda apresentar dúvidas sobre o que estava vendo na tela).

A segunda metade da obra foi uma surpresa positiva para mim: neste momento, há a revelação do paradeiro de Beto Carvalho. Descobrimos que o dramaturgo obteve o mesmo final que Lampião, unindo realidade com ficção: ambos tiveram seus miúdos ingeridos em uma refeição e o barulho estrondoso de mastigação que se ouve em cena agrega ainda mais o incômodo que essa situação de canibalismo exprime.

Mostra-se, assim, que Marginália Carne revela um cunho antropofágico. A antropofagia é transpassada na origem da palavra(do grego anthropos, "homem" e phagein, "comer"), apresentando um ritual onde um humano devora a carne de outra pessoa. Pode-se, também, percebê-lo em seus ideais, visto que o Manifesto Antropófago escrito por Oswald de Andrade sugeria a “devoração” da cultura estrangeira e a renovação estética na arte brasileira.

Marginália Carne tem em seu ato final um monólogo de Maria Bonita, que enaltece o incentivo à cultura, desmoralizada nos tempos atuais. Enquanto a rainha do inferno faz seu discurso, a plateia recebe taças onde é servido o sangue de Lampião na teatralidade e o de Beto Carvalho na realidade. Dentro da história, a pessoa ingerir o interior de outra faz com que ela adquira as habilidades do morto, ou seja: essa bebida distribuída ao público simboliza o gole da arte, visto que as duas figuras se embebedavam disso.

Assim, trazendo tantas metáforas e me causando tantos sentimentos em poucos minutos, Marginália Carne ganhou minha admiração. A obra, que é um grito pela cultura e a arte, exibe esse discurso de uma maneira exagerada, mas profunda, que despertou a minha felicidade ao se apresentar como símbolo de resistência.

O modernismo cinematográfico assume diversos discursos e estéticas que são muito complexos e diferentes entre si. A Itália do pós-guerra fez um movimento modernista que se difere, em grande medida, ao da África francófona recém-liberta. Este modernismo, por sua vez, não se assemelha em nada com o que surge nos EUA dos anos 70. Imagino que você esteja se referindo ao modernismo brasileiro, mas acredito que possa explicitar isso e dizer quais aspectos você está destacando ainda mais especificamente. De fato, todos esses movimentos tem em comum um certo nacionalismo e desejo de transmitir essa nova visão através da arte, mas creio que isso possa ser melhor explorado.

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