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DESVER

FESTIVAL DE CINEMA 

UNIVERSITÁRIO

DE MATO GROSSO DO SUL

  • Foto do escritorKaren Centurion

Entre pinceladas e lembranças: Franco - O retrato sensível da vida com Alzheimer.

Franco, dos estudantes venezuelanos Sarahi Vivas e Mariano Jímenez, é apresentado como um filme que, à primeira vista, explora a intrincada teia da relação de um homem com o Alzheimer e a demência. No entanto, transcende essa temática ao oferecer uma profunda reflexão sobre os meios pelos quais uma pessoa pode resgatar e preservar suas próprias memórias.

Entrelaçando esses dois elementos, o filme cria uma experiência que é simultaneamente emocional e intelectual, mergulhando nas complexidades da mente do protagonista, é como se eu estivesse acompanhando suas ações ao mesmo tempo que adentro ao seu universo interior. A beleza do filme reside na sua simplicidade construtiva. Toda história se desenrola em alguns poucos cômodos da casa de Franco, desde uma consulta médica até a noite de Natal da família. Isso é notável, por exemplo, na construção da cena natalina. A imagem é composta por um pequeno grupo de cinco pessoas sentadas no chão em volta de um pequeno pinheiro com pisca-piscas e alguns presentes distribuídos. Dessa forma, a composição feita a partir de elementos sutis, consegue representar a passagem do tempo, além de trazer enriquecimento, ainda que simples. Franco supera essa simplicidade e atinge o seu alto nível quando se encaminha para o final – um belo plano geral que mostra o personagem, ja idoso, sentado em meio a um milharal enquanto pincela mais uma de suas obras de arte ao som de uma canção de ninar.

E vale me debruçar um pouco mais sobre como o filme consegue me envolver de forma íntima. Novamente, como se eu estivesse testemunhando de perto cada gesto do personagem. Um momento desses ocorre durante uma cena em que o personagem está pintando um quadro, e repentinamente somos brindados com uma perspectiva alternativa da mesma ação, gerando a ilusão de que ele está, de fato, pintando a própria câmera que o filma, ou melhor, isso me transportou para a sensação de estar ocupando o lugar do quadro sendo pintado, me envolvendo de maneira muito interessante na experiência cinematográfica.

O curta vai gradualmente se aprofundando nessa sensação de estar imerso ao longo de sua transmissão. É evidente a habilidade em retratar a transição do estado mental de Franco, seja da juventude para a velhice – ou da velhice para a infância. Essas transições são realizadas com cortes rápidos, me surpreendendo e evocando uma reação que se assemelha quase a um “susto”, por conta dessa rapidez no momento do corte. Isso acontece quando Franco transiciona da juventude para a terceira idade.

A ausência de diálogos de nada me atrapalhou em viver o filme de perto. Em seus quinze minutos de duração, Franco, é capaz de me comover, me fazer mergulhar na história de forma visual e emotiva e, assim, reconhecer o valor das lembranças do protagonista. É algo que agrega valor ao filme, através do impacto emocional causado, para além de seu importante tema. De nada valeria abordá-lo de forma desinteressante, afinal. Uma observação relevante a ser feita nesse contexto está relacionada à inclusão de uma cartela informativa sobre o Alzheimer no final da exibição. É dispensável e redundante, pois contrapõe-se ao argumento que venho desenvolvendo até o momento, justamente porque subestima todo o enredo cuidadosamente construído, que já aborda de forma abrangente a doença. Em minha percepção, essa inclusão me desconecta do filme, que é uma experiência bem maior do que isso.


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