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DESVER

FESTIVAL DE CINEMA 

UNIVERSITÁRIO

DE MATO GROSSO DO SUL

  • Foto do escritorDaniella Silveira

Dúvida em foco

Detalhes. Longos planos de cenas cotidianas: mãos de senhora em seus afazeres domésticos, longos até demais. Confesso que os minutos iniciais me fizeram perguntar “aonde isto vai chegar?”. E lá estavam eles, os detalhes. São eles que entregam que algo não está certo. O anel que cai no bolo, as cordas amarradas aos pés dos personagens, o “café” feito de lama e a lama manchando as vestimentas. Esses objetos e ações destoantes são responsáveis por causar pequenas agonias, que são intensificadas pelo tempo arrastado, pelo som de suspense, pela oração ao fundo e pelos cortes abruptos. Assim, vai se construindo uma atmosfera ansiosa e angustiante, em que esse sentimento é bem-vindo para imersão na história, pois o espectador é colocado quase como um participante que é intimado a resolver o mistério.

É nesse cenário que, diante de uma enxurrada de dúvidas, somos apresentados aos netos de Dona Albertina, em atuações teatrais, com direito a quebra da quarta parede. As encenações exacerbadas me fazem questionar a sanidade dos personagens, que aqui parecem ser uma escolha consciente por parte da direção e os objetos em cena reforçam essa ideia de espetáculo, com a expressividade na medida certa, ou seja: sem aquele overacting no qual o exagero cria tamanha sensação de estranheza e artificialidade em que a atuação se desprende da história.

E com essa escolha narrativa pouco usual (ao menos para os filmes mais populares, como o cinema Hollywoodiano), somos levados a uma trama que começa com um final de semana de primos na casa da avó e passa por um trágico desfecho: Vovó morreu. Será que foi um acidente?

Essa é a hora que o filme te prende. Você entra em uma investigação pessoal, quase como se jogasse Detetive e todos fossem suspeitos. Você começa a procurar significados, nas cenas anteriores que agora parecem ser metáforas para solucionar o crime. A vontade que dá é a de voltar alguns minutos de vídeo e olhar com mais atenção cada um dos planos, procurando por qualquer minudência que possa dar uma pista do que realmente aconteceu.

Cada um dos primos conta seu lado da história, acusações são proferidas uns aos outros e, em meio aos depoimentos ditos ao espectador, a memória viva da avó paira sobre os envolvidos, mostrando que esse é um ambiente de culpa e tormento. Será que há inocentes? Aqui, até os que parecem mais inocentes podem estar mais sujos, do que aqueles aparentam ser mais insanos.

Vovó não é um filme que fica em um lugar comum. Ao mesmo tempo que parece resolver o principal mistério, ainda deixa muitas interpretações a cargo do espectador.

O que muito me chamou a atenção, e por isso sou enfática, é o apelo estético das imagens, parecendo ser pensadas como quadros. As cores terrosas da paleta conversam com o ambiente interiorano e rural, ao ponto que nem as vestimentas dos personagens destoam do cenário, é como se cada um deles estivesse integrado às pinturas que são cada plano. Ao mesmo tempo, as imagens passam a ideia de simplicidade e tormento, o peso delas é tamanho que por vezes cabe apenas ao espectador deixar de procurar explicações e se deixar levar pelas emoções transmitidas.

Um dos pontos que elevam a história é a regionalidade, trazidos pelas cores, atuações, cenários, vestimentas, etc. Isso faz toda a diferença para o envolvimento do espectador com a história. Aqui não é um caso que aconteceu eu uma cidade longínqua dos Estados Unidos, é uma história que ocorreu no sítio do interior do Brasil. Você pode até não saber a localização exata, se em Minas Gerais ou do Mato Grosso do Sul ou qualquer outro estado, mas poderia ser com alguém que você conhece em um local que já ouviu falar. É uma tragédia que se fosse real, você certamente ouviria alguém dizendo: Você viu o que aconteceu com a Dona Albertina? E todos saberiam de quem se trata.

O que eu poderia dizer que, em seus aproximados 22 minutos, este filme consegue ir da monotonia à inquietação. Esse é um bom curta de mistério, mas que talvez possa decepcionar aqueles que procurara obter as respostas de maneira fácil, ou mesmo os que procuram todas as respostas. Ainda assim, a narrativa intriga e opta por não entregar tudo de mão beijada, o que para mim foi mais um aspecto que engrandeceu o filme, mas poderia ser desenvolvido melhor.

Por essa razão, tenho que admitir que uma parte mim pediu por mais, não que o curta conclua nos dando todas as respostas, mas penso que ele poderia desenvolver aspectos narrativos de maneira mais pujante, como o que levou os personagens para tal desfecho, da mesma forma que desenvolveu suas personalidades em um curto espaço de tempo. Ora, se a trama desperta o desejo de investigar uma história, é um pouco frustrante quando o ato teatral ganha mais espaço o que a narrativa ao ponto de deixá-la de escanteio no apagar das luzes.

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