• Carlos Yukio

Ciclos e espaços nas cidades grandes

Mesclando diferentes formatos de POV, zoom e travellings laterais, o curta À Deriva (2021), de Isaac Morais, nos mergulha no mundo introspectivo de um jovem que sai de bicicleta pela cidade de Fortaleza em busca da tranquilidade para ler. Nos tornamos parte da rotina dele, ao lado dele, sem diálogos ou falas. E assim percorremos a cidade durante um dia todo, passando por lugares onde ele está impedido de entrar, cercados por grades.

Os efeitos de refração de luz, fisheye e longa exposição, casados à uma trilha sonora por vezes impactante (principalmente ao passar por um túnel ao um minuto e parecer que está numa viagem interespacial), desembocam em uma estratégia de montagem de baixo custo interessantíssima e que, para mim, fora bem utilizada. A longa exposição dos carros traz a sensação vertiginosa que apenas um ciclista desafiado em meio ao caos de um trânsito caótico de uma grande metrópole já vivenciou.

A produção também explora a utilização de cores vivas e relação gráficas entres objetos, em especial grades e cadeados, mas também placas de trânsito – que representam a impossibilidade do protagonista em acessar espaços da cidade. Esses signos presentes no curta, relacionados à incessante busca do jovem, fizeram-me entender o nome do curta e deram um norte para a interpretação do mesmo. Qual o motivo do personagem estar À Deriva? A busca do lugar calmo na cidade grande e barulhenta?

Outra relação gráfica interessante é a escolha de manter em alguns planos a roda dianteira da bicicleta girando pela cidade e a mudança do chão entre os planos, asfalto, madeira, buracos, pontes, ciclovias, folhas... o que deixa claro que o personagem está numa jornada longa pela cidade em busca de um local para realizar a sua leitura. A viagem de bicicleta começa de dia e termina na escuridão da noite, nos mostrando a duração de tempo em relação às mudanças de espaço.

O curta-metragem traz inicialmente ao espectador a ideia do futurismo, e finaliza com a sutileza de uma cena comum e cotidiana, um jovem sentado num banco de praça, envolto a plantas, lendo um livro. No silêncio e tranquilidade no meio da capital cearense, a imagem final traz um suspiro de calma e missão cumprida a quem assiste.

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