• Alessandra Moura

Axé!

O candomblé é uma religião de matriz africana que cultua os orixás e encontra, no Brasil, seu maior número de praticantes. Ele faz com que os adeptos se conectem com seus ancestrais que, em meio à escravidão, reconheceram na fé um símbolo de resistência e uma reconstrução simbólica de família destruída nesse sistema.

O Abebé Ancestral consegue transpassar o que o candomblé tanto preza: o acolhimento de todas as pessoas por acreditarem que todos são filhos dos orixás, portanto iguais. O curta-metragem de Paulo Ferreira exala, em seus poucos minutos, mistura de conhecimento e poesia que, juntos, causam encantamento e reflexão. Os depoimentos, as histórias e os sons se fundem e, assim, tornam-se uma obra primorosa que, com uma sensibilidade enorme, alimentaram meu desejo por uma duração maior.

O documentário é constituído por praticantes da religião que mesclam, em seus depoimentos, vivências pessoais e ensinamentos do candomblé. Entre essas individualidades, a opressão é citada por uma candomblecista que diz se sentir violentada pelos olhares destinados a ela quando é vista com seu fio de conta, um colar de miçangas que simboliza o orixá e é usado para proteção.

Embora o Brasil contenha o maior número de praticantes do candomblé há, ainda, intolerância religiosa assombrando a sociedade. Dados levantado em 2019por uma delegacia especializada do Distrito Federal apontam que 59% desses crimes são destinados às religiões de matriz africana. A situação não diverge no resto do país pois, no primeiro semestre do mesmo ano, o Balanço do Disque 100 percebeu um aumento de 56% de denúncias em comparação à mesma época de 2018.

Apesar das dificuldades de viver em um mundo desrespeitoso, os candomblecistas encontram nos orixás a força e resiliência para lutar contra as opressões que vivenciam. A natureza, também, representa uma grande importância para os praticantes do candomblé e no curta-metragem esse viés ecológico é percebido através das imagens capturadas. A água é um elemento principal e ainda divide protagonismo com a vegetação verde, que compõe a mise-en-scène de todas as entrevistas, elucidando a crença do axé de que essas esferas naturais representam o divino e foram colocadas mais perto dos humanos para que eles tirem força disso.

A captação de som em O Abebé Ancestral também é uma aproximação do espectador com o natural. É perceptível a valorização dos ruídos ambientes: cantos de pássaros, estridulação dos insetos e barulho da água percorrendo o rio conduziram-me à um estado de calma e relaxamento, aguçando minha espiritualidade e, consequentemente, possibilitando o surgimento de uma comoção com a abordagem de tamanha ternura.

A trilha sonora também revela natureza: a religiosa. O batuque do atabaque presente na maioria do documentário cria uma atmosfera propensa para que haja uma imersão maior na espiritualidade abordada, visto que é utilizado em rituais para que haja a invocação dos orixás. O silêncio desse instrumento dá espaço para o canto de cantigas e, em uma das imagens, a música é acompanhada por uma mulher dançando enquanto segura um abebé. Essa pode ser considerada a síntese do curta-metragem pois os movimentos corporais indicando liberdade, unidos à letra cantada, remete aos ensinamentos do candomblé: a valorização do seu próprio ser e do que te rodeia. O Abebé Ancestral, assim, utiliza até do recurso gestual para transmitir uma mensagem.

No curta-metragem pode-se encontrar diversas imagens que exprimem sensibilidade. A captação do cotidiano dos candomblecistas no terreiro, muitas vezes, apresenta uma movimentação fazendo, assim, com que eu sentisse meu interior imerso naquele lugar, como se tivesse o privilégio de fazer uma visita. A exibição de símbolos do candomblé teve grande importância para o entendimento do significado que têm para os praticantes. O uso de raccords, corte entre dois planos que se correspondem, fazendo alusões entre as substâncias deu um traço poético que, unido aos outros recursos visuais, tornam a fotografia linda, além de muito acolhedora.

A montagem do documentário é um dos aspectos técnicos principais para fazer dessa obra uma riqueza. Somado a essas imagens, O Abebé Ancestral ainda apresenta cenas de depoimentos com mulheres que têm representatividade significativa no terreiro, contando suas trajetórias dentro da religião e elucidando as crenças nas quais moldam suas vidas. Há também o lúdico do contar de histórias na beira do rio e esse conto ensina muito da história de Mejigã, símbolo de empoderamento, homenageada no curta-metragem. Tudo isso, unido e mesclado em sua edição final, revela uma maneira didática de mostrar uma fração do que é o candomblé.

Portanto, é evidente que O Abebé Ancestral revelou ser uma surpresa muito gratificante para mim. O curta foi capaz de me deixar imersa de uma maneira tão inesperada que seus aproximadamente vinte minutos se transformaram em segundos. A delicadeza com que o candomblé é abordado, a preocupação com as minúcias e a grande carga de conhecimento obtida em pouco tempo transparece que, assistir à um documentário simples em orçamento, mas magnífico em conteúdo e emoções pode tornar uma experiência inesquecível.

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